quinta-feira, 28 de abril de 2011
O PULMÃO - GUELRA - DO OMISSO - O CÂNONE DO ESPARSO- ARGÚCIA ANIMAL
Há-de sempre bastar-me o inadvertido - corpo - do irresoluto - o pulmão - guelra - do omisso -
Na lucidez do extemporâneo - os mapas - arcas - abandonadas - a demência dos in-fólios -
Um ténue freixo - o avesso da pupila - a cratera - de metal - água - do inconciliável? -
2.
Dir-te-ei o incêndio - que deflagra - entre retábulos - a argúcia - animal - o êxtasse -
Após o inadiável - o pulso - amarrado - ao cais - de prata - o olhar vendado - persistência do dúbio -
A lâmina - do incontido - no cal das muralhas - pelo empedradado - o sargaço - a hélice - de gêsso -
Onde te deténs – granada obscura - do aéreo - a sombra - beleza - do mar alto - mestria da luz -
3.
Sob o cânone do esparso - a pedra - ferrovia do inepto - revólver inclemente - ponte pênsil - grito -
Réstia da pedra e da escrita - lâmpada de cal - táctil - fulgor - dos líquenes - voz do insano -
O ímpeto da corrente - na retina - relâmpagos - onde me detenho - trovador - loquaz -
quinta-feira, 21 de abril de 2011
SAGEZA -VOLÚVEL COROLA - SORTILÉGIO HAURIDO - SOB A PUPILA - EXTRAVIADA - DA SEREIA
Número e figura - abóbada desnuda - sobre as águas - em seus lábios - os mapas desbotados -
Canavial - insaciável mente - prata e sombra - revólver - pátio amplo - asas de milhafre -
2.
Inadiável - torre de vigia - na retina - seixo - inerme - que o brilho - do corpo - aclara -
Luz que se dissipa - na pedra humedecida - a esvair-se - minhas ovelhas e cabras - fídago do absorto -
3.
Amnésia - dia e noite - manuscrito - longa jornada - terreiro de argila - erma colina - do incêndio -
Céu do insano - clarão - bosques e prado - falésia - ténue voz - do inadiável - altos cimos? -
4.
Sageza - crânio esburacado - tojo - volúvel corola - do incontido - sortilégio haurido -
Enlace - da cal - que fenece - o cobre - clépsidra - vicissitude do branco - desta ilha -
5.
Bátega - mar iníquo - sob a pupila - extraviada - da sereia - lâmina do sucinto ? -
terça-feira, 19 de abril de 2011
A TÊNUE LUZ - OS MAPAS - NUVENS DO SOLÍCITO - AS TÂMARAS DA INSENSATEZ
Evoco cada imagem - tremente de expectativa - os repéteis mudos - sal da cegueira -
junto do solícito - a geometria - por trás das pálpebras - os fotogramas - do anonimato -
2.
Ante a lente do definitivo - o revólver e a câmera clara - o mais fremente - corpo - as mãos -
Sob os arcos - as granadas e a morfina - as sílabas - hálito do mar - noite - do irrealizado -
3.
Rente aos mapas - o céu do irreconhecível - inescrutável deserto - noite do exíguo -
Cúpula e torres - caligrafia - sombras do exasperado - salamandras - orla do bosque -
4.
No que concedo - a tênue luz - diante da ampulheta - o néon - casulo da borboleta - pupila -
Intangibilidade - da fala - ouro - cisterna - anho - opacidade dos sinais - magnificência do cisne -
5.
Sonolência do branco - a cal - que se desmorona - na treva - pelo topo das pedreiras - o verso obscuro -
Som - da erva iluminada - a lâmina - do invariável - azul - tâmaras da insensatez - vespa - da eloquência -
6.
Por sobre as águas - a reverência das escarpas - a intransponível cabra - nos cumes do insano -
Pão do escaso - nuvens do solícito - gralhas do inomeado - clareira - serpente do compacto -
sexta-feira, 15 de abril de 2011
REPÚBLICA BORDEL - A LEALDADE E O PATÍBULO
FRÉMITO DO INVERSO
quarta-feira, 30 de março de 2011
MAÇOM - PEDRA CÚBICA - DO AR - RECÔNDITO FULGOR - HÓSPEDE DO AVÊSSO
qual fiel-de-amor - sob o jugo do segredo -
neófito - no recesso do ser - estrela-guia -
2.
de novo a veemência - do dilúvio - a criptografia -
fala - insígnia - compasso - viagem - mar da profecia -
mudez - precisão vítrea - jornada - contemplativa -
3.
julguei avistar o tigre - a inflexível lucidez - do deserto -
ante o incoercível - a concisa pedra cúbica - diante - do ar -
a morada - sal - do impronunciado - desvario - flamejante -
fala do incógnito - mapa do oculto - invulnerado - certo? -
4.
o que nos compele - ao recôndito - a incontida luz - do corpo -
fulgor - do díspar - poema absoluto - parede e umbral - pupila -
reincidente tremor do indefeso - imo - solo - voz do indómito -
flama - bosque irrefutável - imensidade - chão do incessante? -
5.
cativo da pitagórica mente - o tarot - entre a lâmina da opulência -
renunciei à arraigada alquimia - da deserção - os versos do anónimo -
por um momento fixei a cal antiga - no vácuo - a magnólia e o arcano -
nas nuvens - os ditames do branco - o arcanjo - hóspede do avêsso -
quarta-feira, 23 de março de 2011
ARTE E NATALIDADE EM ELISABETE AFONSO - SIMULACROS E METAMORFOSES
Elisabete Afonso pode ser considerada o exemplo típico de uma pintora obsecada com o “feminino puro” ancorado no ser. A pulsão (de regressão) maternal é o ponto focal desta pintura. Informada pela subjectividade - no limiar do chamado psiquismo -representação - que nos remete a introjecção do feminino materno primário - esta arte não está desvinculada dos experimentos mentais e estratégias intelectuais - da escuta - da encenação do mundo - o “si-mesmo”.
Fazer (in)atribuível?
O debate sobre os traços dominantes na arte e na escritura actuais mostra a pluralidade das poéticas possíveis. Há, ainda, um facto característico: a pluralização de estilos de vida individuais. As instalações de objectos ou das performances tornam-se obras. Não se assiste à morte da arte: é o fim do regime de objecto. E, se é verdade que a pintura vaporizou-se - passou naturalmente ao estado gasoso - por relação à cultura de massa (comportamentos de base do animal humano), o novo regime da arte - depois dos anos 80 - é, no entanto, o do triunfo da estética. Não há duvida que a arte contemporânea tem algo desse engajamento puro - sem objecto - é sobretudo um “experimento” - processo compartilhado - fazer “(in)atribuível” ?
Esotérico e (in)apreensível
É assim que podemos retornar a aproximação com a pintura de Elisabete Afonso - descobrindo o fulcro de uma poética (in)assimilável - na vizinhança de uma (mundi)vidência feminina que emerge e se faz sentir - onde real, imaginário e simbólico se intersectam. A dialéctica do ocultamento e da visibilidade - que subentende um compromisso com a ordem significante - parece-nos essencial para compreender o seu pendor esotérico e (in)apreensível - a subjectividade - que se descobre ou traz à luz. A “subjectividade” não deve entender-se como uma espécie de eu interno que só há que expressar: donde a importância da "natalidade".
Eros e Psique
Se quisermos traçar esquematicamente um mapa “contextual” - na marca do protótipo feminino - poderíamos dizer, grosso modo, que a arte de Elisabete Afonso é, antes de tudo (e principalmente) o esquadrinhar de uma assinatura-mundo (onde se con-figura a projecção válida ou a projectabilidade). Sobre um pano-de-fundo pulsional - os significantes puros - elementos do simbólico - a sua pintura surge-nos - essencial e constitutivamente confinada ao campo do sensível - o ponto de vista afirmativo do inconsciente (estruturado como uma linguagem). Eros em Psique e Psique envolvendo Eros se cruzam na arte de Elisabete Afonso. Por ora, basta-nos reter a especificidade de uma pintura (que se entre-mostra) enquanto compulsão da repetição - mestria - insigths e pontos cegos - que abarca um “estilo” convincente - sem trégua.
Energética das pulsões
Essa interpelação do corpo libidinal (enquanto demanda irrevogável - devir - “deslocamento”) que configura (em um sentido bastante amplo) uma energética (vicissitude) das pulsões repercute-se nesta pintura - submetida que está à eclosão - travessia para os reinos pós-racionais. Encontramos aqui a ênfase da alteridade, do papel decisivo da diferença sexual, que nos permite afirmar, de modo convicente, que a arte 1) ainda não morreu - tornou-se o éter da vida - fulcro extrapolar do (in)específico - litígio - monólogo - “mise en abyme” - impacto emocional - microcosmos - e ainda que a arte 2) (re)assume, pois, uma prática experimentalista e pluralista - inflexão (in)abarcarcável - transferencial - irredutível - terapêutica - catarse - objecto de satisfação - um “não-saber”.
Dizer o indizível
Pode-se aventar a hipótese da filosofia que, desde os seus primórdios, consistiu em uma tentativa de dizer o indizível. Assim, para Hilary Lawson, a questão decisiva - de Kant a Wittgenstein - girou essencialmente em torno do paradoxo auto-referencial. Os seus impactos sobre a arte incidem a vários níveis. Mas é precisamente esta presença do ver - cujo modo é o infinitivo - a epifania da visibilidade - que assoma no esforço criativo de Elisabete Afonso. Ecos dessa visibilidade - ver o invisível - transparecem nos seus quadros - onde se agrega trauma e fantasia, amor e desejo, pulsão e sublimação. Convém, no entanto, termos bem presente a nossa (específica) inabilidade de descrever o mundo. Será que a criação, assim, neste contexto, não procura objectivos comunicativos? Até porque não restam dúvidas de que em filosofia como em ciência (e na arte) pensar é criar e criar é problematizar?
Porto, 22 de Março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
TUMULTO - RECÔNDITA PÁGINA - PRECISÃO DO TÉNUE
O corpo que se esvai - na pedra - sobre a luz emudecida - pálpebra - de água -
Gêsso - erva trémula - hidra do tumulto - recôndita página - bosque inabitável -
A letra do inapropriado - êxtasse - evanescente - revólver - precisão do ténue -
quarta-feira, 9 de março de 2011
CAMINHO INAPROPRIADO

quem persiste ágil - no grito - cerrado -rente ao caminho inapropriado - do incêndio -
persiste no clarão da inércia - a terra arenosa - da cegueira - perspicácia do definitivo -
junto ao que se repercute - retoma a intangível pedra - no ar - o âmago do insaciado -
2.
quem irrompe no inerme - campo raso - do constante - a rústica penumbra - do resoluto -
algures na vertical - nomeia a oblíqua lucidez - o inviável - e desliza pelo curso inalterado -
escala o teatro - do convincente - por capricho - descerra a lâmina do deserto - a inexactidão -
pressuroso pastor - permanece na ânsia do inextinguível - a cabra do olvido - nudez do despótico -
3.
quem ignora o que desaba a pique - o touro desperto - do inerme - a geometria do inacabado -
pela relva - contra o céu do exacto - retoma o audaz - e persiste no inflectido corpo - a fragância - da lama -
o falcão alvoroçado - brilho da nuvem - sobre as águas - a voz do obstinado - silêncio invariável -
segunda-feira, 7 de março de 2011
ANTE-MANHÃ
O ímpeto da claridade seduz
Faz jorrar a voz do intangível
Sob o jugo das tulipas
A sua omoplata silenciosa
Súbito o deserto ante-manhã
A música do resguardo
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
seguimos sendo um instrumento de algo
A pateticidade colectiva universal que é a situação na qual vivemos - em que seguimos sendo instrumento de algo - é certamente a projecção de uma lógica de administração do tempo que se converteu numa forma moderna de expectativa da salvação. Assiste-se frequentemente à perda da relevância das instituições e dos padrões interpretativos religiosos. Outra ainda é a transformação ou reforma de conteúdos teológicos em seculares. Aí encontra Hans Blumenberg a auto-afirmação humana que constituiu a característica mais significativa do nosso tempo. A idade moderna é, no entender deste filósofo e historiador, a superação da gnose. É o começo da positivização do mundo. Assim, por exemplo, na moderna teoria do conhecimento, que aspira à certeza teórica, se vê uma secularização do problema básico cristão da segurança da salvação. Fica evidente a partir do exposto acima que todas as teorias modernas da transformação e da revolução, da subversão e do terror, são um resto secularizado da ideia originária cristã de progresso. “O horizonte histórico – diz ainda Hans Blumenberg - perdeu ante os nossos olhos o objectivo transcendente – o reino dos céus – de uma história salvífica. A transcendência debilita-se enquanto que a imanência fortalece-se”.
Auto-afirmação
Hans Blumenberg tenta mostrar que no moderno “ethos” do trabalho se descobre a secularização da santidade e também das suas formas correspondentes de ascese. O próprio postulado da igualdade política de todos os cidadãos surge como secularização do conceito de igualdade de todos os homens perante Deus. Ora pois: podemos inferir, pelo menos, que a ideia de progresso se vê – ainda segundo o historiador e filósofo alemão - degradada à condição de “secularizado” da concepção de uma história de salvação providencialmente estabelecida. É apesar de tudo a força motriz e base de uma moderna vontade de auto-afirmação, surgida por causa do absolutismo teológico medieval e do desenvolvimento moderno da política, da ciência e da técnica. Nós “modernos” passamos à concepção de uma vida realizada que já não supõe uma “vida superior”. Frequentemente a promessa eudemonista da aceleração moderna pode ser vista como o equivalente funcional das ideias religiosas de “eternidade” ou “vida eterna”, e a aceleração do ritmo da vida representa, em sentido lato, a grande resposta moderna face ao problema da finitude e da morte.
“Mobilidade acelerada”
Não se meditou o suficiente sobre a modernidade enquanto complexo tecnopolítico. Trata-se de apreender a realidade cinética da modernidade que - na gíria de Peter Sloderjik - nos fez gravitar numa “mobilidade acelerada”. É esta uma denominação de origem marciana e, em certa medida, sobrecarregada de ideais bélicos. Chega o momento em que a mobilização se traduz na chamada ascensão diabólica. Mais ainda: dentro de determinados limites, os passos do progresso (na versão da modernidade) geraram, pelo menos, novas formas de opressão e miséria. Parece que nos encontramos neste ponto. Tanto mais que, apesar de tudo, “a defesa da permanente inovação é, simultaneamente, herança e dogma da modernidade” (Mobilização Copernicana e desarmamento Ptolomaico - Ensaio Estético, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1992). Devemos acrescentar que a mobilização de massa tornou-se mais evidente que no passado: tomemos o ser-para-o-movimento. O sinal óbvio desta mobilidade é, em particular, o automóvel: ele tornou-se por toda a parte o centro cultual da religião universal cinética. Faz-se necessário insistir em afirmar, entretanto, que a aventura humana move-se em direcção ao monstruoso global. “Autonomia e desespero – diz ainda Peter Sloderjik – se tornam sinônimos”.
(Ciber)mundo
Neste contexto gostaria de começar por me referir à questão da sociedade de consumo (donde já não há possibilidade de um discurso significativo) Não se trata apenas do reconhecimento dessa atmosfera geral de economia de casino – mas ainda assim da “world” cultura, a cultura global. As manifestações neo, trans, pós são mais discretas, mas afirmam-se mais em cada dia. A verdadeira vida (desregrada no sentido rimbaudiano) passou a ser necessariamente o videojogo. O problema está posto: a prevalência da manipulação e da amálgama dá o carácter principal à actual fase do (ciber)mundo. O que é novo é, antes de mais, a dificuldade ou resistência de se aceitar o “não-visualizável”. Tudo é agora visualizado. As nossas dificuldades vêm sempre da superabundância das imagens: quando o ver avança, o pensar recua - alternadamente. Há uma disseminação infindável de imagens que – repetimos - destronam a palavra (enquanto oferta de salvação).
Sensibilidade vicária
Como podemos ultrapassar esta primazia da imagem – no que respeita à prevalência do visível sobre o inteligível – que frequentemente nos leva a um ver sem compreender? Talvez o mundo multimediático em seu presente não seja apenas aquele divisado por Giovanni Sartori – como pressupomos - simplesmente bloqueado naquele ponto em que o ver está a atrofiar o compreender (Homo Videns, Televisão e Pós-Pensamento, Terramar, Lisboa, 2000, p. 43). Estamos entrando agora, por impotência ou vileza, em uma era da sub-informação e a des-informação (assente na produção de pseudo-acontecimentos). E no tempo das redes – da comunicação frequentemente heterodigida – onde não podemos renunciar ao amâgo de uma “lógica circular”- já sem qualquer centro - as amarras do trivial e do insignificante. Verdadeiramente o aumento da credulidade e da supertição é suficientemente revelador para não termos de temer essa constatação hoje evidente: a idade do pós-pensamento. Como explicar, por exemplo, que a sensibilidade vicária - viver através da experiência alheia - seja um traço fundamental da nossa cultura? Sucede mesmo que os nossos impulsos fragmentários e caleidoscópios despontam numa atitude blasé.
Imperativo dromológico
Admite-se, por posição de princípio, que a nossa sensibilidade é formada pela exposição urbana (embora inclua simultaneamente aspectos vários). Mas como entendê-la? George Simmel descreve o nosso estilo de vida urbanizado abordando, contudo, as formas das diferentes culturas do tempo que coexistem dentro das modernas sociedades avançadas. A aceleração é, em certa medida, o movimento temporal predominante hoje em dia, mas não é o único. Efectivamente, a aceleração está omnipresente nos mundos do trabalho e do consumo, mas também está no mundo da vida quotidiana, projectando em todos eles o seu imperativo dromológico (seguindo a noção retirada de Paul Virillio).
Globalização
Não há margem para dúvidas de que o corrector da bolsa é o seu protótipo: tentar fazer o máximo de coisas possíveis no menos tempo possível, andar mais rápido, acostumar-se ao incremento sem fim da velocidade do ritmo da vida social. O “fast-food” - e, ainda dentro do mesmo registo, as “parties”- parecem, então, revelar um estilo alimentar de vida acelerado. Com a centralidade da globalização (global players) assiste-se à des- localização do capitalismo multinacional e seus fenómenos correlatos: a violência estrutural ou a violência da injustiça. Por um estranho paradoxo, as maiores velocidades sempre estiveram associadas aos estratos mais ricos da sociedade. Riqueza e a velocidade têm um efeito colateral: a exclusão. A doença de hoje é a insegurança, que é um outro nome do medo. Sabemos que uma parte crescente da população activa experimenta mesmo a obrigação do tempo livre como desempregado ou como reformado antecipadamente.
(Sub)cultura
O ponto importante que desejo enfatizar aqui é que existe um mundo do (pré)constituído que quase nos identifica com uma sensação sem precedentes de responsabilidade pessoal e impotência individual. Foi-se assim generalizando a aceitação de um certo mal-estar - no liame de um século desgastado pela ascensão e queda das ideologias tradicionais - logo revelado por uma (sub)cultura dominada pela simulação e a hiper realidade. É portanto legítimo acentuar que nos quedamos num mundo de imagens e de simulacro puro. Depois disto, como nos havemos de admirar que o vídeo tenha substituído o diário pessoal?
“Simultaneous happening”
Devemos agora reconhecer que as nossas sociedades surgem associadas à dramatização do poder e do acontecimento e, por que não dizê-lo, a um excesso de informação e de comunicação. Poderíamos designar este estado como de “simultaneous happening”. É certo que, em sentido rigoroso, o poder tornou-se publicitário; e isso não é coincidência. Discutem-se, assim, as técnicas do audiovisual de que o poder dispõe. Ninguém escapa à chamada dramaturgia democrática: a propaganda (na sua articulação com uma linguagem padronizada e homogeneizadora). Nestas circunstâncias a exasperação do espectacular pela irrupção da imagem – garantido por um mundo televisionado - tornou-se uma evidência. Um exemplo entre outro desta contaminação temo-lo na subordinação efectiva, decisiva e absoluta do indivíduo metropolitano ao espaço gerado pelas telecomunicações - com e pela instantaneidade e ubiquidade.
Subtom melancólico
Dir-se-á que o subtom melancólico que nós hoje conhecemos é feito de uma multiplicidade de posições-sujeito. Já falámos da psicanestia, da compulsão obsessiva, da desconexão entre o corpo e a mente, da emersão na velocidade (originado da cibernética), da rearticulação do verbal pelo visual nas nossas sociedades (MEGALÓPIS). Assiste-se no seu conjunto em concreto à generalização da teatralização (mediática). O próprio eclodir de uma estética da embriaguez nos induz a uma forma de anestesia (que conduziu ao declínio da consciência crítica). Uma reflexão sobre a crescente importância e influência das identidades culturais híbridas ou desterritorializadas deve comportar, ao lado do que diz respeito à fragmentação e a alienação da subjectividade, um exame do colapso das maneiras convencionais de formação de significado. Assiste-se, sem dúvida, a uma circulação e revalorização do “kitsch”: nele convergem a reclicagem (ir)reverente, o gosto pela iconografia e pelo artificial, o melodrama e a super determinação. Mas tudo isso não serve senão para confirmar uma sociedade que se converteu em espectáculo (Guy Debord). Divisamos de facto uma ruptura da ordem sistémica que é uma passagem para a afirmação da desilusão com as narrativas mestras da modernidade. O ponto central está no facto de que a referência humana à realidade (se aceitarmos a sugestão de Hans Blumenberg) é indirecta, árdua, retardada, selectiva e, acima de tudo, metafórica.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Sussuro do tigre
ÍNGREME
sábado, 26 de fevereiro de 2011
MERCÚRIO CLARO
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
ANJO DÚBIO - VOZ DO PÓSTUMO - DESAPRENDER
deambular no aéreo - pela lanterna do opaco - o insondável - junto dos regatos -
transigir com o exemplum - a saciedade da erva - e voz do póstumo - desaprender -
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
A PACIÊNCIA DA METÁFORA - A PLENITUDE DO ESPÊSSO
quem perpetua a insónia - a lâmina do austero - pelo aéreo - a pólvora do obstinado -
sob o revólver - junto ao castanheiro - retoma o que se repercute - na íris - diafragma -
água e cegueira - sôpro indolente - da erva - ossos - animal gasto - penúria do nada ? -
NUDEZ DO INITERRUPTO
pelo corpo do ileso - o incongruente peso - da voz - tacto - inquietude do branco -
a escuridão do díspar - nudez - água do ininterrupto - cal - retina do ilimitado -
INCENDIUM AMORIS
sobre os lagos e os lameiros - a mente - os ditames da escrita - incendium amoris -
o estampido na neve - goteiras de zinco - lebre - a intangível sageza - dos arquivos -
PLENITUDE DO ESPARSO
ignoras a paciência da metáfora – a chama da luz rasgando - o som do estilhaço -
o que claudica - na pedra do augúrio - plenitude do esparso - irrefutável - nuvem ?-
PELICANO DO DESERTO
junto ao casario - em chamas - os alpendres - delimitando o céu - prateado -
as bétulas - pelicano do deserto - bosque do definitivo - oblíquo - inverso -
BAÚS DO EXAUSTO
sob os baús do exausto - os in-fólios - plenitude do espêsso - a eclosão do díspar -
nos confins da memória - a lâmina do indizível - penunbra - insaciável desabamento ?-
PEIXE INABITÁVEL
no que vislumbras - as reprêsas - o peixe inabitável - que se condensa no exímio -
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Fulgor Terrestre (excerto "Voz do Emerso")

fulgor terrestre
No silêncio escuro a vi eu
Sob as naves seu corpo dormente
Entre o cotovelo e mente
Há só um fulgor terrestre
Quem irrompe na luz súbita
Onde o irreprimível se acoita?
Esquivo eis-me levado a contemplar
A voz e a audaz sabedoria
No céu pleno de teus próprios passos
A beleza máxima das coisas
Vigueur terrestre
Dans le silence obscure je l’ai vu
Sur les dômes son corps endormi
Entre le coude et esprit
Il n’y a qu’une vigueur terrestre
Qui brise dans la soudaine lumière
Où l'irrépressible loge?
Esquivant je suis amené à contempler
La voix et l’audace sagesse
Dans le ciel plein de tes propres pas
La beauté suprême des choses
sábado, 27 de novembro de 2010
“EX-CRETA” DE VIRGÍLIO LIQUITO
Quais são as principais características textuais - a marca decisiva (difícil de identificar) – desta contra-narrativa ou narrativa da diferença - de Virgílio Liquito? Quem saberá destrinçar o que em “Ex-Creta” há de saída do labirinto, o que há de “instância” path-ética, neuropática e maníaca (admitindo a loucura ou, por definição, a sagrada esquizofrenia dos antigos gregos); o que há de recalque, trauma e clausura, de via do infra-humano e do atroz (sob os liames extremos da fantasmagoria excremencial)? Qual é o conteúdo básico do seu discurso (in)habitual? O que é interpelado ou representado? O que se configura neste jogo discursivo - misto ou híbrido - incessante - compulsivo - ordinário - transgressor - não-linear - engendrado entre a combinatória de situações limite e do cruzamentos complexo da língua e efeitos de sentido? A introdução do inadmissível num mundo somente admissível?
Sub-mundo, puzzle
O livro que ora analisamos - na sua mesmidade - discurso-outro - irrompe e afirma-se como ligação ao idioma des-construtor (deliberado ou não) ou à assinatura des-construtiva. Ainda aqui na constelação dos efeitos da repetição significante, do corpo-pulsão, que se torna psiquismo-representação. Aceitando a noção de “foraclusão” - definida por Freud - que designa, em primeiro lugar, a “expulsão da coisa”, expulsão que funda o sujeito e inaugura a sua produção discursiva. Lembremos a lógica dual destes textos - onde se re-afirma uma escrita nas cadeias de eros - entre as opções de gramática e de estilo - o real sócio-histórico e a veracidade testemunhal e a fidelidade autobiográfica. Implica, como tal, e pela temática envolvida, toda a re-actualização de um sub-mundo obscuro - (in)directo - aspectos e modalidades do dizer e do não-dizer - ou do implícito e do explícito - subterrâneo. Falámos acerca dum material inconsciente - não passível de interpretação e de recordação - que aparece então como “actuação-repetição” de um passado esquecido: “inusitado puzzle” (p. 31). É sob esse enfoque “sublimatório” que deve ser lido Virgílio Liquito.
Escrita-dejecto
Seria aliás difícil negar o sentido propriamente “ex-cêntrico” no qual esta escrita não cessou nunca de se desenvolver. Nada há aqui de fotografia “polaroid” do real. Poder-se-ia apreender a sua lógica enquanto “poética” da “ex-posição” - do singular - do “isso” - a parte obscura - impenetrável do humano (tomando a psicanálise). Falámos da con-figuração de uma escrita-dejecto, viscosa e idolátrica, fetichista, excre(de)mencial, (des)sacralizadora. E que, neste ponto, nos remete ao ateísmo da revolta e à blasfémia - um mundo de penumbras donde é necessário valorizar a sombra e apreciar os reflexos apagados. Mas tomando em conta que o centro desta “escritura” é praticamente determinado, segundo o nosso ponto de vista, pela sua inflexão libidinal, o pendor revelatório e transferencial. Outra hipótese mais complexa: a sobre-posição desordenada, a circularidade, o deslocamento, ou antes, a deriva narrativa. Porque o modelo prevalecente é o da linguagem exorbitante oriunda dos “Contos de Maldoror” de Lautréamont e de George Bataille.
Sujeito acéfalo, pulsão
“Ex-Creta”, de Vergílio Liquito, é um exemplo de um dizer náufrago - capaz de dar voz ao silenciado - a psicose - o (in)formulado - e onde se associa o real enquanto “impossível”. Mas há mais. É preciso ter em conta o caos pulsional - a dimensão delirante (mórbida) que deflagra nesta escrita - as premissas e os postulados de uma memória falaciosa - e certamente (in)capaz de reproduzir o passado - um processo (psico)patológico. Eis aqui um conjunto de textos na sua determinação “própria” de transgressividade narrativa - sintoma – quase sempre emersos no fluxo das recordações-puras, da rememoração, que condensa em si o sujeito acéfalo da pulsão. Não custa, porém, a perceber um universo discursivo marcado por instabilidades, no qual se fixa o fluxo dos distúrbios constatados e nada mais que estes distúrbios. Daí a sistémica do descomedimento, da expiação e da catarse (inseparável do autêntico trágico).
Fantasmas, simulacros
Alguns pontos do percurso do nosso autor são valiosos para mostrar a veemência de uma linguagem aparentemente aleatória e (im)previsível. Trata-se de uma escrita - que se furta aos rótulos (géneros padronizados) e, consequentemente, aos géneros do discurso (o “dejá vu”) - como contraparte ou (com)sequência : a) da ambivalência narrativa (emersa num discurso paranóico e psicótico); b) do sujeito desejante, sujeito do inconsciente, que permeia os (não) ditos do texto em questão; c) dos fantasmas (introjecção e incorporação); d) dos simulacros (levando em conta os materiais patogénicos). Há uma ordem ou desordem que actua. Daqui nos colocarmos em posição de “entender” a presença de não-ditos no interior do que é dito.
(De)composição, (dis)funcionamento
Seisgmundo Freud tinha já compreendido que a matéria corporal estava sempre sobre a suspeita de ser aviltante por conservar em si a memória da condenação ancestral que a carrega do opróbio da bestialidade. É claro que os textos de Virgílio Liquito não se contentam com enunciar o corpo fantasmático, o gozo, as feridas do simbólico mais que as feridas simbólicas. Ressalta uma particularidade interessante: a fixação sádico-anal, constatável na neurose obsessiva, os disfuncionamentos fisiológicos-orgânicos, gastro-intestinais, a proximidade ou “familiaridade” com a (de)composição. Reduz-se a ser uma escrita de aportações auto-biográficas - um compêndio de um complexo freudiano, onde se explora e potencia a morbidez patológica?
Traço-significante da miséria
Nos seus textos vislumbra-se, mesmo assim, tal como podemos reconstituí-lo, a interrogação angustiada do sentido da existência - o traço-significante da miséria a que chamamos a emergência da agressividade constitucional do humano - e o rastro do transbordamento pulsional (reconhecido como traumático) no regime fálico. O nosso autor não se contenta com enunciar a beleza de um sublime devaneio onírico e a brutalidade sem álibis no sofrimento psicótico. Prefere, antes, insistir na promulgação e glorificação arquétipa do sórdido? Uma nova categoria estética – o excrecionismo – surge, assim concebida, levando em conta a “atracção, mitológica, pelos sedimentos fecais” (p.8). Trata-se de uma poética tributária da “ruminação”, desse “visco” que Freud chamou “libido”. Assente numa velha e nova filologia – com referências ao putrefacto - captando territoralidades - produzindo e revelando sujeitos - personagens renegação (recalque) - fazendo emergir de si efeitos-sujeito - histórias bipolares.
Tessitura arcana, extenuação
No termo deste périplo é visível, porém, na escrita de Vergílio Liquito, a sua conexão com a experimentação no escuro, a “travessia do fantasma”, a secreta patologia. A questão posta também o que se refere directamente à alquimia ou “metagénese” - enquanto “signo-sintoma” e “signo arquétipo” – do “evento Universo Detritos” (p. 9). Porque tal é o dado primeiro: a repetição-diferenciação, o díspar, a extenuação reconduzindo aos “clichés” ou à auto-imitação. Como dar consinstência ao “pathos” genital do pensamento, um fundo delirante, híbrido, evenemencial ? Nessa retomada da vulnerabilidade “interna” do homem, a sua falta de coesão, a sua divisão ? Mas que pensar, entretanto, de uma escrita-síndrome, forjada em todo um engajamento “elementar” - simbolismo – tessitura arcana da matéria? No e pelo grassar do excrementício e do urinário, o que se fixa no prazer da retenção e da erecção, a conformação entre a passividade anal e a actividade fálica (seguindo as concepções dos freudianos e kleinianos)?
Clivagem, condição paradoxal
Parece-nos claro que a existência humana não é unicamente, nem precisamente, racional e volitiva, mas também patética; o nosso carácter não é só “ethos”, mas também “pathos”, nosso devir no ser e na existência não se limita ao domínio da razão, mas que se dá no acontecer mais além do controlo racional e nossos actos. O “pathos” é um elemento configurador do “ethos” até ao ponto de converter o humano existir em condição paradoxal. Relendo e confrontando estes textos - re-traçado de com(im)possibilidades - , acabamos por nos tornar testemunhas da mutação destruidora do desejo fálico em desejo de assassínio do objecto. Insistamos em que a frequência dos mecanismos de recusa e de clivagem, as ameaças que pesam sobre a identidade, o medo de se ser possuído por uma figura monstruosa, vêm aumentar essa suspeita.
Porto, 25 de Novembro de 2010
Alexandre Teixeira Mendes
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
CONJURANDO A VOZ DO ILESO - A NUVEM DO DHARMA
- OS MANTRAS, VOZ DO SUMPTUOSO
sob a vastidão do anónimo - a emersa ostentação - dos mapas - os escombros marinhos -a nuvem do dharma -
por entre a boca e a lâmina - inenarrável - o canto e gesta - irrefutável - a erva da insónia e o vento - improvável -
os mantras - voz inatingível - ritmo sumptuoso - do inominado - os scripta védicos - em chamas -
os baús de pólvora - devassa do escasso - imperceptíveis cisternas - que ocultam - a lâmpada do indefinido -
A CABRA NA NOITE
- A MEMÓRIA DA FADIGA
o sono desabrigado - da montanha - as nuvens do inconfessável - relâmpagos - por sobre as arrecadações do anónimo -
um tiro de revólver - no soalho húmido - a memória da fadiga - para lá da pedra do infortúnio -
a cabra - na noite - que desejaste – a musa - falcão em retirada – junto às abóbadas - a beleza do inexpressivo -
A LENTE NUBLADA DO ILEGÍVEL
a nave de sal - a obcecada imagem - do inesgotável - algures - por detrás da retina - a lente - nublada - do ilegível -
pêssego indescritível - que se dissimula - na pólvora - do inactivo - lâmina - mar - inexpugnável -
manto desfeito - do opaco - a pedra - no meio da rebentação - barbatana - cabra - peixe escarlate -
luz sem nome - naufrágio sem espectador - nuvem - brancura interminável - penedo adentro -
O VAZIO DAS PEDREIRAS
- LUZ REFLECTIDA DO INCÓLUME
junto ao que desaba - o vazio - das pedreiras - as cercas e os muros –
os líquenes - que possuo - lâmina reclinada - pelo céu do intacto -
sobre a pólvora - o alento húmido - luz reflectida - do incólume -
DESERTO, ÂNSIA
- NOITE DO INVULNERÁVEL
indescritível - corpo - que se extravia - na lâmpada de cal - que entorpece -
profusão dos relâmpagos - a música do exausto - voz do insano - alucinada -
deserto - ânsia - que se dissipa - infranqueável - na noite do invulnerável -
ÊXTASE DO INCERTO
conjurando a voz - do ileso - o labirinto - êxtase - do incerto - imperceptível -
secreto pensamento - grito do sedento - o anátema divino - vazio - ínfimo -
pedra inexorável - sal e ouro - impenetrável - o incisivo corpo - do aéreo -
luz inextinguível - pela mestria do discreto – o que não cessa - acaso abolido -
NA COMPASSIVA CEGUEIRA DO INDISTINTO
- OS BRÔNQUIOS ENTRE OS SALGUEIROS
na compassiva cegueira - do indistinto - o circunscrito irrefutável - os brônquios - entre os salgueiros -
sobre o corpo do exíguo - caminhar a esmo - no bosque - pelas bátegas espessas - a presunção do labirinto -
escutando – a voz do interminável - em meio às trevas - a pedra oblíqua - vislumbrar os chakras - omissão inultrapassável -
o que subsiste no axioma do inválido - nesse assomo celeste – a voz do loquaz - indecidível ?-
Chaves/Porto - 7/8 Novembro 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
AS NUVENS DO INADIÁVEL
LUZ DO INDEFINÍVEL, DISTINTO ABSOLUTO
sob a luz do indefinível - a névoa da demência - o distinto absoluto -
a música do irreconhecível - junto ao que emudece - a voz do dúbio -
O INCÊNDIO, CORPO DO INDIZÍVEL
1.
ante a fala do espesso - o corpo - do indizível - a fímbria da luz -
no que soçobra - a escassez - a palavra do aéreo - inenarrável -
2.
as sobrancelhas escuras - íris do funesto - céu nômade - do inerte -
a espuma vazia - do desvario – o pulmão - incêndio - mar a dentro -
3.
junto das pedreiras - a iminência da voz - no que escutas - o meticuloso -
a lâmina que subsiste - na memória - o deserto que assoma - na visibilidade -
TÉNUE CORPO, SAL DO INADIÁVEL
as túlipas - que reúnes - o ténue corpo - das ruas decisivas -
o farol - pedra que resvala - na voz do emerso - o fio de erva -
a ávida retina - esvaída espuma - cal e gêsso - sal do inadiável -
a ofuscada luz - arremessada da vertigem - canto que entorpece? -
LÂMPADA DO INSACIADO
a lâmina - grito impróprio - da mente - que se imobilizou -
cabeça - láudano - torre de pedra - lâmpada do insaciado -
a avidez da palavra - voz esquiva - sinais do incongruente -
vicissitude da arte - nuvens e gerânios - a nudez do inegável -
A OPULÊNCIA, VOZ DO INAPROPRIADO
sobre a cúpula de pedra - vislumbras - a opulência - da arte –
na companhia de caravagio - iluminas - os códices - secretos –
na luz dos alpendres - retomas o que vacila - na pedra branca -
do ileso - o pão e o vinho - da poesia - a voz do inapropriado? -
VOZ DO EMERSO, CANTO DE ADONAI -
quem sucumbe ao obtuso - a explícita cifra - a cegueira irremediável -
nesse apego oracular - ante o rasgão da luz - escuta a voz do emerso -
o que se desvela - na palavra - do inconcebível - o canto de adonai?-
CORNOS DO SEDENTO
a cabra vem - ante o mar - pretexto da sombra - tácita e inerte -
sobre o ar - nesse sono de ninguém - junto da erva - um muro -
terra - que me hospeda - prata na neblina - cornos do sedento -
INFINDÁVEL OBSESSIVO
- BOSQUE IMPENETRÁVEL
ESPUMA INVULNERÁVEL, DO CONSTANTE
através da noite - o bosque impenetrável - a pedra do inerte -
a solícita voz - do incógnito - nuvem - rumor da intempérie -
a espuma - invulnerável - do constante - o céu do imerso -
O BRANCO, SOBRE A TELA ILUMINADA
quem transige com a cegueira - permanece no intacto -
retoma a minúcia dos sinais - infindável obsessivo -
o branco - circunscrito - inalterável - sobre a tela iluminada -
o que se extenua no corpo - subjugado pelo irremediável ? -