sexta-feira, 4 de junho de 2010

No branco, o olvido

Quem perscruta o corpo do exausto - a pedra irreconhecível – o incessante - a intangibilidade do osso -

Sob as cúpulas - as naves do convincente - lembra as nereides – cartago e shakespeare -

Ante o que se apressa na nuvem do exausto - a palavra do omisso - o que se extinguiu - na putrefacção - o pão do incontido ? -

Quem permanece insaciado - no branco - o olvido - o que se dilui - impronunciável -apaziguante -

Por entre o definitivo cede à luz do insuperável - a voz do intransponível – bizâncio -

Em desvairo retoma a cegueira – o sal do opaco - o desbastado - as arcas do inacessível ? -

domingo, 30 de maio de 2010

EPIGRAMMATA

ignoro a luz do exacto - o que se apressa no branco -

ut recitem tibi nostra rogas epigrammata - nole -

saber-me insaciado - na reverência do explícito -

a pedra do insone - a lâmpada única - que resvala -

terça-feira, 27 de abril de 2010

BIRKENAU

1.

Em birkenau vivenciei o ignóbil - a infâmia -

A dor dos cárceres - no abismo da luz - o pranto -

2.

Rendido ao silêncio - a voz apátrida - fez-se muda -

Sobre chuva matutina - extraviada - o inerte -

3.

Relembro os corpos amontoados - os dias turvos -

A sinuosa trilha - do imundo e do perverso -

4.

No casario - selado de negro - tudo se dissipa –

Ladra um cão - o martírio parece não ter fim -

5.

Quem se recosta na pedra do inimaginável –

entre as lajes húmidas - na noite constelada –

Respira a custo – nos confins do frio e da desolação ?-

Revive o anelo vão da infância - a exausta linguagem ?-

6.

Quis tornar válido o milagre - e não descobri um jeito de escapar -

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A MUDANÇA E O DES-SER

1.

Sob o opaco vislumbro uma atenas corrompida - a veemência do ultraje bancário -

Sinto-me abatido e perplexo - na inanição - o cerne da fraqueza -

Meu queixume se mantém - a arraigada voz do insensato - o que se abeira do imprevisto -

2.

Ignoro a constância do desalento - as invectivas exultantes - dos comissários -

Tudo capitula com a atrocidade – a aridez capitalista - a certidão de óbito – do marxismo -

3.

Quem assiste impassível ao jogo - na conivência dos séculos com o obsceno - o fascismo consumista ?-

Desconhece a vida una - os gracejos da plebe - o profundo anelo do lumpen proletariado ?-

4.

Perco-me na desvalidade face - de karl kraus - o distante e o lendário - o que transborda -

Nada apazigua o medo – para lá do palco da saturação – quem fixa a dor desamparada – inerte ?-

5.

Sei-me na lucidez da pedra - o exílio – testemunha do erro - da fatalidade? -

Que revolução permanente sobre ti espera - se torna aridez – intangibilidade – absoluta certeza? -


6.
O canto da zelosa ortodoxia – me parece insípido - a bem-aventurança -

Sou a mudança e o des-ser - a voz do hostil e o ouro do sabat –

A ascensão ao céu e o verdugo - os gerânios sobre o branco – da anarquia -
7.

Há-de sempre bastar-me a música do fugaz - o musgo negro - da beatitude -

A ilícita fantasia ou a invenção - nos trâmites do extraordinário - o verbo-puzzle -

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A CRISE DECISIVA

1.

Quem desfila no meio de uma tempestade em chamas - inebriado -

De novo perpetua o inócuo e o insignificante - o infame - da linguagem -

Em incessante andamento - sob a curva do céu - para o extremo norte -

Quem vem pedir socorro? - Se converte em pedra - o destruído ? -

Neste perambular - desnecessário - donde vem - ilumina?

2.

Tudo se volve abismo iminente - naufrágio sem espectador - eco antigo -

Em vão procuro a enfastiada lucidez - o minotauro - o detalhe que me cega -

A crise decisiva é algo de crónico na humanidade - o tremor - inevitável -

Nenhum tempo é justo - o vazio se propaga - o unânime obscuro -

O subterfúgio impera - a catástrofe - golpe e ferida assoma -

3.

Estou apto para o circum-mundo - a casa-cárcere - o patíbulo -

O sentimento que prevalece é de um fim - de uma extinção -

quinta-feira, 15 de abril de 2010

DOCILIDADE DA PEDRA

Quem acolhe o relâmpago - por sobre a erva do submerso - na luz do tumulto?

Retoma o fulgor da penumbra – a docilidade da pedra - no fundo dos salgueiros? -

Prevalece pelo absorto – o insaciado - na matéria desnuda - do cosmos ?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O IMENSCHURÁVEL, JORGE TAXA

Perplexo ante a indecibilidade - perpetuo o intrínseco -

Na detonação dos axiomas - o labirinto desconcertante -

Ilumino o obscuro – o alento irreversível - espesso - inumerável -

Prisioneiro dos antimundos - resvalo na falácia – verbal -

Da filosofia - a matemática do pretensioso - o compacto –

Atapeando o cânone do esparso - resvalo na inflexível - prosa -

Nesse intento - de uma mente em chamas - o prodigioso transe -

segunda-feira, 12 de abril de 2010

MIGUEL EYQUEM, MONTAIGNE

1.

Enclausurado no alto da torre - junto ao que resvala - invertebrado -

Perpetuo a eloquência - o que se desmorona - na criação suspensa -

A tautologia - do insigne - o que se desvanece - no implícito -

2.

Embalado no branco da luz - as nuvens - reclino-me - no fugaz -

Na ténue escrita - o vago e inconsciente - écran do corpo - ilógico ? -

3.

O nemus opacum me tenta - a musa irredutível e a filosofia -

Bagatelas - por um massacre - junto ao que capitula - a voz -

Do explícito - a eclosão da pedra opaca - a lucidez - o obstinado ? -

4.

Regressas ao sal do desespero - a esse ritmo do invulnerado -

Nos confins do exíguo ? - Rumo à perpetuidade do incêndio -

O perambular - o grito e a voz do esparso - o olhar indescritível ? -

quarta-feira, 7 de abril de 2010

MARCEL DUCHAMP

1.
O anti artista aguarda sua vez - entre os panos de púrpura - a pintura do inepto - o vórtice -

Por entre a volúpia - vagueia - no rito da carência - pelos despojos do irrepetível - o omphalos -

Mediúnico - compacto - irrompe pela lâmpada indestrutível - o ilógico - a avidez do incêndio -
2.
No que intenta - afincado e constante - permanece na impossibilidade - a cegueira dos líquenes -

Fixa o ígneo - o inconsumido corpo - a deserção e os albergues da loucura - o oblíquo transe -

3.
Súbidto do caos - do prolífico - no que entrevê - devasta - de novo -

Sob o incólume - a escala descendente - ilumina o anónimo - pretexto da manufactura - o convulso -

Pelo relâmpago do inclassificado - transforma a hábil- recôndita arte- régia - mutilada -
4.
Quem se esgueira - no elucidativo - o hábil e o conceptual - o resoluto -

Prossegue na rendição perante o purgativo - o que irradia - o ríctus extrapolar -

Junto ao que levita - retoma o arcaico - a pedra e o vôo lírico ? -

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O DESABRIGO

Confinado à inútil trégua - da filosofia - o tremor - a nostalgia -

A mais extassiada retina - sobre nada - o sono que desaba -

Saber-me na veemência do inalcançado - as nuvens do fecundo -

Torpe sussurro da voz - o sequioso corpo - ao desabrigo -

Nenúfares - náufrago que pressinto - o interruptor metálico -

Lanterna - luz da cera que vislumbro - o rumor das orquídeas silvestres -

quarta-feira, 31 de março de 2010

ANTONIN ARTAUD

1.
Porque náusea - gerânios e escombros de alma - aresta facetada -

Mutação da dor - o delírio - sobre o cérebro – porta giratória –

Desfiguração - caos estomacal - poema inconcebível - transe -

Diz: porque pulsos expectantes - opacidade - lanterna obtusa -

Máscara petrificada - chama intacta - ressequida - osso indelevel-

Diz: porque inconsistência – lucidez - inaplacável desespero -

Ou asfixia - pesa-nervos – voz de pedra - humanidade morta - rodez -

Diz: porque o inexorável - negro céu - o demónio eloquente? -
2.
Porque o inescrutável – a conversão - o poema lúcido - a dose de peyotl -

Diz: porque o cataclismo – o corpo voraz - paralítico - a cura - o pedestinado passamento -

Ou voz do impróprio - a unânime morada do inflamável - as instruções do naturalismo mágico -

Porque a ressonância - dos tarahumaras – a fulgurância das vastidões vazias –

Diz: porque a bruxaria fisiológica – o rastejar – na lava – o inominado? -

terça-feira, 30 de março de 2010

WALTER BENJAMIN

Em porto bau - a pólvora do resoluto - a morfina do fugaz - as visões -

Desse mundo inapreendido - a voz do esotérico - os relâmpagos - da iluminação profana -

Saber-me na veemência do obscuro – o que ousa ser a falência – do anjo da história –

No que abdiquei - a possessão do corpo – o inevitável delírio - bolchevique -

Sobre o vazio - a nudez da pedra - o único e a sua propriedade – a decência -

Sobre o que inventamos – o inútil comedimento – a irrecusável luz - do mar -

Partir esquecendo os marinheiros de kronstadt - a santificação da revolta -

segunda-feira, 29 de março de 2010

ALENTO DA INSÂNIA - O ELUCIDATIVO

1.
Quem acende a lâmpada do inabalável - a luz do nada -

Permanece no alento da insânia - a lonjura - o elucidativo -

Sobre a demência da pintura - retoma a voz do irrecusável ? -

2.
Quem irrompe pelo exausto - o furtivo - o irreversível corpo -

Na tela - junto ao cavalete - celebra a intransponível - sombra -

O que se desdiz no apelo lácteo - a música - a arte do inabitual ? -

3.

Sobre a desaparição - o fulgor do branco - o que se apressa no hábil -

Resvala na loucura - o traço adicional - a geometria do inesperado -

O surgir do abrupto - a claridade - onde transpões a labareda do hostil -

quarta-feira, 24 de março de 2010

ERWIN PISCATOR

1.
Sobre as abóbadas iluminadas - o palco artesanal - invulnerado -

O studio - de erwin piscator - desaprendendo o mundo - a desfazer-se -

2.
Através da caducidade da voz - quem cede ao movimento perpétuo –

A convulsão das palavras - sobre a luz pulsante - decapitada ? -

3.
O exercício da queda - inconcebível - o fragmentarium - corpo -

Núcleo e periferia - o fôlego do teatro épico - inapreensível -

Trazendo algo de muito remoto - a tribuna política - a cura mágica -

sexta-feira, 19 de março de 2010

BALTHUS

Diante do sono branco - pelo entardecer - o atelier - de balthus -

O que desdobra na luz desamparada - obscura - hermética -

As visões anacrónicas - da pura permanência - o monólogo - o grito -

O que assoma na nudez - o corpo incendiado - a veracidade adolescente -

Símbolos e imagens - relâmpagos ocultos – nas vidraças - crayons do esplendor -

Diante do que se esvai na loucura - a elegia - o signo-senhal - o sete-estrelo -

quinta-feira, 18 de março de 2010

VIENA DE WITTGENSTEIN

1.
Arremessado sobre a noite escura – quem escuta o torpor da voz de wittgenstein ?

O intermitente corpo da musa - denso solilóquio - voz amante - do insano –

Vasto senhorio da philosophia - o indizível - a linguagem-mundo - inefável ? -

2.
No frémito de viena - o dúbio clamor das arestas – klint e seu modelo –

Entre estrelas - o indelével som de schöenberg – lâmpada sobre o abismo -
3.
A profusa demência - de karl kraus - posse fugaz e causticante – nas noites da insónia – o teatro de poesia -

Súbita a face andrógina de weininger - ríctus fálico que exibo -

arremetido corpo - onde se desnuda teu rosto e te ocultas - inconsútil mefistófeles -

4.
O ímpeto do verbo escuro - minha fraqueza - vertige du déplacement -

O que subsiste - no solilóquio - acarência - voz do estático -

A irrepetível carta de lord chandos - inconstância pressentida? -

quarta-feira, 17 de março de 2010

MARRAQUEXE

Sob a campânula os in-fólios - a pedreira -

Luzes e sombras - a brisa do entardecer -

Deter-me nas vitrines - a discórdia da arte -

Prolongar o ilícito - o som do deserto - funânbulo pretexto -

Junto a um postal ilustrado de marraquexe

Saber que embarco e perpetuo a insónia do corpo

A inapreensível voz do ténue - o plausível -

A lucidez antes de cair por terra - o esparso -

Fiel ao obtuso - a música do inenarrável -

terça-feira, 16 de março de 2010

RETÁBULO EM CHAMAS - DORA MAAR

Quem se detém na voz alucinada - o retábulo em chamas -

Desliza pela infância - sob a lava - a memória do irreversível?

Junto ao retrato de dora maar - prossegue mudo - sobre a luz depurada?

Quem contempla pela derradeira vez a nuvem branca - o ímpeto do falacioso -

Por cima das velhas naves do incerto - vislumbra a pedra profanada ?

Porto, 16 Março 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

DANDY

Sob a sonolência de heliogábalo busquei a lucidez do dandy stendhaliano

Tornei-me irrelevante - anónimo - a mosca de diógenes - o fôlego de adónis -

Abotoado como george brummel - a la recherche d’ une parole perdue -

Permaneço junto das túlipas - na voz diáfama de callímaco -

Sou o hóspede clandestino - que indaga a palavra do omisso -

A penumbra e o silêncio - o corpo ocioso de alcibíades -

Sou a erva húmida e o júbilo desnecessário - a indiscrição da pedra - antínoo -

O que se aprimora no frívolo - a suplicação do artifício – o intransponível spleen -

Porto, 14 Março 2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SEREIA

Lembro um diagrama antigo - a melancolia mesopotâmica - um resto de nogueira de altenburgo - um cacto na minha parede do sexto andar – o retrato do jovem ésquilo ali mesmo – sob a ponte de brooklim – a amplitude do deserto - sempre recomeçado - a terra extenuada que me prende – voz inimitável – da sereia – que me impele à doce ciência de que vivo - o cemitério marinho – sobre o ouro e a pedra – inflexível –