terça-feira, 3 de abril de 2012

BALEIA BRANCA - ICEBERG INABITÁVEL

aqui me deito sobre o incêndio - dos mapas - o que se esvai na pedra - emudecida - a memória do incessante -

resta-me perpetuar - a lava - o seu corpo inadiável - permanecer emerso - na lente - nublada - mar do desnecessário -

jamais pude esquecer o ar polar - a baleia branca - iceberg inabitável - a exasperada voz - do insano -

pouco me importa a dor - do diafragma - o revólver - acima da sua própria cabeça - o pânico - pulmão - fugaz momento - da respiração - inviável -

ante o manicómio - o mútuo desdém - logro clínico - nuca - inacessível - prelúdio do incomensurável -

quinta-feira, 29 de março de 2012

OS MAPAS - INFÂNCIA IMÓVEL -

volver-me às cartas de tarot - a perfeita imagem - do inexplicável - descerrar os mapas - do incomensurável - cingir-me ao parco - o indescritível - e permanecer no signo velado - rente à adversidade - a infância imóvel -

segunda-feira, 26 de março de 2012

TEATRO - INEXPUGNÁVEL -

- INFINITO ENCENADO -

saber que diviso - o teatro - inexpugnável - infinito encenado - a voz - insistente - do irresoluto - na incumbência da noite - hei-de partir - e remover as palavras - do irreversível - urdir a alucinação - do sucinto - a plausibilidade do díspar -

quinta-feira, 22 de março de 2012

TREMOR IRREVOGÁVEL

recordo o olho de boi - trespassado - por uma lâmina - de ar -

o grito - a pedra do inacessível - os mapas do incomensurável -

voz hebreia - pão ázimo - entre a noite - o tremor irrevogável -

sobre a luz obtusa - em teu flanco - a pedra - incêndio exacto -

RETINA DO ESPESSO

transpor a retina do espesso - o gueto - tácita palavra do deserto -

ser o foragido da inconsistência - manter-me na órbitra do infindo -

reter a pedra - para inquirir - transpor o pecúlio - baú do mantimento -

quarta-feira, 21 de março de 2012

SAGESSE, SABER E SABOR

- ESCRITURA E DISCURSO EM FÁTIMA VALE E BRUNO MIGUEL RESENDE

Sagesse, saber e sabor são três palavras com a mesma raiz, provenientes do latim sapere, que significa ter o gosto (ou o perfume). Elas revelam-nos o caminho que Fátima Vale e Bruno Miguel Resende escolheram indicando talvez os tópicos de uma “escrita-gozo” onde se retoma o apego trans-versal ou neo-maneirista (nas exigências de l`artífice) - a vocação visionária. Falada ou escrita, a língua precisa de “prazer”, do jogo de palavras, da “alegria” do texto. Não podemos, no entanto, deixar-nos seduzir pelo poder criador da abstracção ou pela magia da palavra. Porque, a crer em Martin Heidegger, “o que se enuncia por palavra nunca é, em nenhuma língua, o que se diz” (Questions III, pág. 35)

topologia oracular

A complementaridade entre as poéticas de Fátima Vale e Bruno Miguel Resende é agora mais patente. Em ambos, a primazia da língua - o impossível que lhe é próprio - a confontração com a melancolia. Reencontramos aqui as conexões ou os registros híbridos - xamanísticos ou mágicos - a philia dos filósofos - o preciosismo e o rebuscamento verbal . São duas modalidades - sujeitos-de-enunciação - escritas - que, à primeira vista, não procuram objectivos comunicativos. Os seus textos - no intervalo entre a Patafísica de Jarry e a estética do duende e do aduendado de Garcia Lorca - surgem-nos ancoradas na “alquimia” e na “imaginação activa” e, por conseguinte, nos avatares da (com) pulsão erótica. Parte-se do intentio des-construtor (na emergência da topologia oracular), das narrativas-moldura, do eros cognoscitivo.

escrita depurada - uterina

Em “´Spabilanto” (Incomunidade, 2012) de Fátima Vale enraíza-se uma poética da catarse e da doação (sob o influxo das iluminações). Trata-se de uma uma escrita depurada - uterina - onde se increve (de forma directa, imediata) o affectivus (o transbordamento pulsional). Poderíamos falar de uma poesia orante cuja lógica é a da re-afirmação do metamórfico e do epifânico. É necessário ter em conta o stylo original de confluência simbólica e linguística bilingue (entre o português e o mirandês), Trata-se, pois, de um poemário miscellanea do erótico e do festivus, da defesa do maravilhoso, do inusitado ou “primordial”.

códigos da origem

A estética de Fátima Vale remete-nos ao “teatro” do (cosmos) texto: ”os códigos da origem” (pág. 24). Este conjunto de 18 textos - exercícios da escrita - sob a fluidez do sensível - concedem ao imitatio “imitação”, por sua sinonímia com “cópia”, quanto seu correspondente grego, mímesis, a sua importância primordial. Refira-se: “mimesis da memória/hermética dissolvência da resenha pura/palavra erecta”(pág 11). Assente num discurso de “a terceira voz“ (p. 30) - de afirmação de uma ars erotica - poderíamos falar, efectivamente, de uma poética do sensível – sob a hegemonia da terra-matriz animada - a partir justamente dum apego à insânia - o pathos dionisíaco - ou o privilégio do êxtasse e da ebriedade. Eis a questão fundamental que se põe: a escrita-excepção e o actor-xamane.

delphis, matriz

Existe um forte pendor lírico (mediúnico) na obra de Fátima Vale. Nela se põe em relevo a marca délfica (que nos remete à palavra delphis, a “matriz”) - o (inter) texto cultural - a hybris trágica - o fluir heraclíteo. Não é difícil notar o pendor de uma escrita que parte do ludus, jogo, e do illudere, jogar, é a aposta da desmesura, do discurso engenhoso. Pode dizer-se, contudo, que estes poemas nos remetem a um tipo de escrita erudita - (tran)sensorial - da desmedida do ser - do corpo pulsional (no fluxo de um idioma sumptuoso).

“plateaux”

“Falosofia”(incomunidade, 2012) de Bruno Miguel Resende é uma afirmação da (des)construção - dos insights para-sóphicos - da prática intertextual - primum falum - eros. No seu registro híbrido - mas também contaminação de géneros - torna-se visível uma escrita por “séries” ou “plateaux” - de (des)ligações - quadros - especulações - na imbrincação do teatro e do symposium. Todavia uma poética singular (no regime a-teológico) ancorada numa série de figuras ou narrativas - um parafrasear de multiplicidades - as glândulas genitais. Convém fazer referência - em sentido lato - a um texto puzzle onde se cruzam, em última análise, os chistes e os trocadilhos sofisticados, a ironia no “des-figurar” a convenção escrita.

montagens agenciamentos

Dez (10) quadros - digressões – que se fundam sobre a evenemencialidade da linguagem. Irrompências selváticas (do latim selvaticus, “o da floresta”), monó(diá)logos - dissertações - “textualidades vínicas” (p. 24). Um livro que nos remete, pois, a Apuleio, Rabelais, Jarry ou Bataille: as montagens agenciamentos - manipulações anagramáticas - encenações textuais. E isto a partir de um universo discursivo marcado pela tensão expressiva e simbólica – a língua como desejo - a inflexão inusitada - a (ultra)dimensão do sentido.

paradoxo

Bruno Miguel Resende começa o seu livro atribuindo à teatralidade um papel capital (põe precisamente, como Artaud, os mistérios de Elêusis como paradigma do teatro autêntico). Ele faz daí o “lugar” da emergência do paradoxal. O paradoxo não se opõe ao verdadeiro mas ao que nos parece ou aquilo que entendemos ser verdadeiro. O fim do paradoxo é para a filosofia o começo da verdade. O paradoxo é por isso a condição da possibilidade do pensamento. “Ora a verdade - como nos diz - escreve-se e enterra-se. Desenterra-se e reescreve-se (…) Confirma-se algo pela sua descendência” (pág. 13).

vénus - veneno

A noção de “Premonitório. Prestidigitação cosmogónica (…) Surrealização” (pág. 10) é também importante para compreender o ponto de vista sobre a escrita de Bruno Miguel Resende - enquanto voz do impossível - antropofagia - “redescoberta visceral do outro em nós” (pág. 6). Desenha-se uma lógica que nos remete à philia (amizade) e à sophia (saber, sagesse). Estas questões aclaram-se se as remontarmos à noção de philosophia - amor da sabedoria - ciência do ser - o que é já reactivação da theoria - que se de-compõe? Mas há mais: a primazia dum discurso em torno de vénus (e por meio da qual se chega à noção latina de amor físico, acto sexual). De vénus derivam o veneno (venenum) e o venenoso.

erecção e direcção

Voltemos à escritura, traço, suplemento, hymen, o falo(logos) (afim da erecção e da direcção). É aqui que intervém pã e príapo - o falo do corpo do deus para fazer dele o símbolo sagrado do erotismo. Os modelos que se trata são, igualmente, o venerável e o venéreo. Segundo as teses de Lacan o primeiro significante é o falo. Lembremos que Freud fala da premissa universal do falo, sendo este o lugar onde a diferença anatômica se torna logicamente impossível e onde - segundo - Germán L. Garcia - se produz a alienação de um sexo por outro, e desaparece a relação sexual. O real da diferença fica oculto (no sentido de ocultismo, de abismos e enigmas). O autor de "O chiste e a sua relação com o inconsciente" põe - no termo da análise psicanalítica - um nome à incerteza sexual generalizada - bissexualidade - que sanciona as dificuldades da identidade, a partir dos "caracteres sexuais".

Livraria Traga-Mundos, Vila Real, 10 de Março de 2012

Alexandre Teixeira Mendes

quinta-feira, 8 de março de 2012

"RANHURA" DE CARLOS VINAGRE

- lógica do convulso, uni-verso orgânico


“Ranhura” (principícios, Lisboa, 2012) de Carlos Vinagre (1987) põe de facto em relevo o eclodir do corpo e da escrita, abertura para o confronto com um horizonte pré-dado, sempre aberto, hiância ou fenda. Um substantivo feminino (preciso) como pré-requisito. Poder-se-ia levar em conta, porém, o seu pendor melancólico, uma poética de tensão e mesmo de paradoxo, onde se valoriza a imanência e o cepticismo (movimento iniciado por Piron e sua escola no século III A. C.)

e não mais que o aparato lógico
uma arritmia alojada pela porta do cutâneo
uma desconfiança de tudo quanto existe
e uma corda a enrolar-se na espuma exacta (p. 24)

A característica desta escrita é o relevo dado ao uni-verso orgânico (na sua expressão fisicista - nuclear e totalizante - de “arquétipos” ou “imagens-princípios”). Na utilização das metáforas quase-conceito relacionadas com as asserções “intensivas” da bioquímica - o ADN inscrito no corpo - a entropia - a indeterminação - a própria (in)comunicação patológica. "Há uma voz que soletra o impossível - abranda um impulso das estranhas. Escamo a pele até que o fumo invada a minha traqueia e eu me sinta perante o indizível" (p. 14). Referirmo-nos, por conseguinte, às sequências de experiências “irresolúveis”. De facto, as fórmulas esmagam-nos. Pensar com propriedade é difícil e demorado. E não nos julgamos no dever de dizer tudo: (in)comunicar.

desterritorialização e máquina humana

Trata-se, realmente, de uma escrita do orgânico e do aberto (à luz do corpo-pulsão e do psiquismo-representação). Mas não se trata de invocar o corpo-ser mutante e a escrita-palimpsesto - tudo o que concerne ao dictamem obscuro - a acentuação da poesia enquanto voz do impossível - o outro - indizível e intransferível .“Habitar o que não é habitável e deixar a lareira expandir-se, queimar a casa, arder todos os meus livros, todas as minhas recordações, todas as minhas cadeias, num exercício anti-poder que me liberte para o que não existe” (p. 9-10).Poderíamos falar de uma escrita centrada sobre a desterritorialização. Onde o que importa reter é uma palavra-chave: a máquina viva (auto-organizada). “Insisto na máquina humana. Desejo depô-la, deitá-la ao lixo, procurar o limbo incolor na fome do corpo, deitá-la fora e abrir as minhas costelas à procura de um outro coração que respire, com um suor mais vaporoso e uma forma aberta à imprecisão de tudo” (p. 9).

códigos da biologia

A força atractiva da poética de Carlos Vinagre evidencia-se de modo particular pela sua referência aos códigos da biologia. Que sentido tem (e ainda tem) falar da máquina neuronal que nos “distingue” do animal? Como se elabora o pensamento abstracto que nos caracteriza? Que significa o cérebro como um sistema auto-programado? Que relação poderá existir entre os objectos mentais procedentes do real e os chamados objectos mentais fictícios, inventados, imaginados? Encontramos aqui enunciada a questão do não-redutivo - as bifurcações do aberto - os quantas (Erwin Schrodinger). Assim, da noção primeira do não-linear (discontínuo), passamos a estoutra, mais precisa, de pseudo-aleatório (fractal). Compreende-se assim que a nova ciência fale mesmo de bifurcações, leis de escala, caos, atractores estranhos, intermitências. Fica assim expressa a démarche característica da escrita de Carlos Vinagre: a sua configuração paradoxal. Que aglutina e polariza em torno de si - numa escrita condensada e abreviada - uma série de questões pertinentes que parecem concentrar-se gradualmente à volta das noções de da ordem e da desordem - das com(dis)junções – dos imputs e dos outputs sensoriais. “os paradoxos são cruciais pela antevisão da/manhã./Por esta óptica adquiro uma transparência/ vulnerável, talvez uma ética./não é retalho. Ao dobrar de cada rua, ao bater,/alimentado pela ranhura das nuvens, outra busca” (p. 17).

Err(transum)ância

Importa, no entanto, ter em atenção que, neste poemário, a linguagem não é a “casa do ser” (Martin Heidegger) mas o lugar de uma metamorfose itinerante. De facto é lícito supor que ser, é ser nomeável. Conjuga-se assim o anúncio da err(transum)ância. “Não quero restar. Prefiro a convulsão, ser escutado pelo mundo, a minha língua é traída pelo verbo… Abisma-se a negritude das coisas. Quero abrir o tórax ao universo, despedaça-lo, ser escutado pelo sonho. Desejo a incomunicação” (p. 33). Ponto de partida e eixo fulcral é, prém, a negação das teorias do news-making - do “já dado” informacional - tendo em conta que a poesia surge-nos como transe (do latim transire = passar), “sagesse”, abertura (sináptica) para a visão (as experiências visionárias).

Bar Olimpo - Porto, 7 de Março de 2011

Alexandre Teixeira Mendes

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

NOS CONFINS DO IRRESOLÚVEL

1.

sobre os arcos do disforme - ante a figura que se esvai - a cerrada pupila -

o tudo-nada - onde se descortina - deus e o diabo - a nave - pedra do inábil -


2.

nos confins do irresolúvel - o frémito dos mapas do desconforme - a luz reflectida -

saber-me nas imagens inverosímeis - desenhos do indecifrável - o cavalete do aéreo -

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"MÉNAGE À TROIS"

- da “urbs” à discursificação da vida quotidiana


Podemos indagar-nos sobre a travessia da escrita de Zé Pinto Leite, Pedro de Andrade e José Soares Martins - a poética comum de “Ménage à trois” (Cordão da Leitura, Porto, 2011), visando fixar, ao mesmo tempo, o continuum das suas marcas inter-textuais, tropológicas. Os livros aqui agrupados – “Jardim das Delícias”, “Poesia Sociológica ou Poesia em Directo” e “Alquimias” - tríptico de três philoi (amigos) - coloca em evidência o sentido (com)partilhado das palavras-chave ou visões encadeadas - a corporizar uma dinâmica (inter)textual -(multi)referencial. Temos aqui bem patenteado um acervo de práticas poéticas associadas à contracultura e, portanto, o desencanto (na cultura de crise). Parte-se de um universo discursivo marcado pela tensão expressiva e simbólica do real (na conexão com a experiência quotidiana). No primado das incrições sócio-ideológicas - este conjunto de poemas (diferenciados ou diferenciantes) privilegiam um vocabulário não-canônico - imprevisível - toda uma gama de tópicos críticos-em-acto e lírico-sentimentais.

paráfrase romântica e híbrida

Falámos dos pressupostos básicos de uma poética do singular-plural - de rupturas e derivas - a veicular (total ou parcialmente): 1) uma discursificação da vida quotidiana; 2) uma irreverência ou “pour cause” uma “revêrie” política (que envolve o experimento adicional de reflexão sociológica); 3) um mundo visionário ou trans-versal (que condensa a desconstrução ou a paráfrase romântica). No seu registro híbrido - mas também contaminação de géneros - torna-se visível o jogo de figuração e ficcionalização do eu (correlativa indecibilidade). As referências culturais são diversas e vão desde as obras de certos contestários yippies e poetas americanos - Allen Ginsberg, Gregory Corso e Lawrence Ferllinghetti -, à poesia romântica inglesa, Brecht e Maiakovski, e ainda a conceituação sociológica e o seu enfoque intra-ideológico (activista).

psicadelia e nomadismo

“O Jardim das Delícias”de Zé Pinto Leite, título roubado a uma obra árabe do século XIV, surge-nos marcada pela contracultura - os insights da psicadelia - a visão errática e nómada do mundo. Todavia uma poética da “urbs” que - nas suas conexões ou registros especulares - surge-nos ancorada na pulsão - o transbordamento pulsional - e, por conseguinte, a alquimia e a imaginação activa. Assim:

à descoberta
do eu realidade-imagem
do tempo alquímico (p.55)

Convém fazer referência - em sentido lato e algo impróprio - a um conjunto de textos (como uma valência eclética, codificação múltipla ou até sobre-codificação) onde se cruzam, em última análise, o pastiche e a citação “beat generation”. Em que a diferença reside na máxima operância de uma poética com base no carácter expansivo e aventuroso da arte. Zé Pinto Leite re-equaciona, repetidas vezes, a experiência do sensível - a partir justamente dum apego perceptivo ou, se quisermos, cognitivo-visionário (em consonância estrita com os mantras, o zen-budismo, a vagabundagem e o beatífico - na aproximação a Kerouac). Existe efectivamente uma demanda poética sob o signo da performance - a evenemencialidade da linguagem - os dispositivos pulsionais. Um poemário que nos remete, pois, aos arcanos do experiencial - o hiper-real - o “pathos” decadentista. E isto a partir de um universo discursivo marcado pela instância psicodélica-catárquica - a tensão expressiva e simbólica – a língua como desejo - inflexão inusitada.

sociologia e activismo

Em “Poesia Sociológica ou Poesia em Directo” de Pedro de Andrade a microsociologia torna-se inspiração: desdobramento autónomo de um discurso crítico das práticas sociais. Aqui se combinam as reflexões em torno do poder e do establishment (a sociedade móbil, onde o homem surge-nos votado a ser consumidor-usuário). O que é característico da realidade social é que - em rigor - não se pode reduzir a uma simples soma de disposições ou de manifestações individuais. Depreende-se que a tentativa sociológica manifesta-se igualmente quando esta mostra todos os condicionamentos sociais geradores de evidências. O poeta não é inimigo do homo sociologicus. De resto, a poesia revela-se, por sua própria natureza, uma outra versão da errância - da sub-versão política e ideológica - enquanto corolário do confronto com o horizonte pré-dado - abertura para a visão (as chamadas experiências visionárias) e a história (mundo). Delineia-se, desta forma, uma escrita que amplia a denúncia do grande supermercado universal - das políticas neo-conservadoras - e que contribui, portanto, para afirmar a ideologia-realidade da contestação (apocalíptica). Há certos elementos que definem o actual processo social - marcado pela super-programação - o descontentamento e o niilismo - onde impera: 1) a necessidade artificial; 2) a usura planificada; 3) a apatia e o conformismo das massas; 4) a depressão. Noutros termos: 5) os bloqueios e as discriminações; 6) o medo e a impotência política; 7) o cinismo ineficaz e o culto do “rei dinheiro” (nas derivações do capitalismo financeiro).

Nesta política somos todos celebrados
Logo, pró-escritos
Logo, prescritos

Nesta cultura, somos todos adiados
Logo, re-escritos
Logo, rescritos (p. 96)

A poesia de Pedro Andrade alude ao “infinito da negação”- convida ao activismo político - o utopismo revolucionário. Surge-nos comprometida com o planfetarismo - na formulação e fixação de representações (ou melhor: de leituras) do texto social. Ademais depreciativa e fustigadora do poder e dos seus símbolos - repressores ideológicos. Na primazia da revolta e da desobediência civil - do “différend” - evoca Maiakovski e, sobretudo, Brecht. Nele se passeia a figura do anarca, indivíduo rebelde.

lirismo sentimental

“Alquimias” de José Soares Martins re-assume a aura romântica. Poderíamos falar de uma poética da catarse (sob o influxo das visões, dos sentimentos e das iluminações rimbaudianas). Trata-se, pois, de um poemário onde se increve (de forma directa, imediata) um transbordamento pulsional (onde se exorciza a configuração amorosa). A primazia pertence, por isso mesmo, à ordem contingente de um lirismo sentimental (tendo mesmo em conta a sua filiação romântica inglesa ou, ainda, alemã). Lembramos o élan interior destes poemas onde se toma em consideração a carência e a plenitude do “sentido” – o homo viator - as alquimias e as moradas do “sentir”:

Falaste-me do destino dos erros vários
Que nos nossos passos se engendravam
Chovia e a minha alma dolorida
Abria-se às águas da Primavera
Recordei Mântua essa noite de chuva
Com Leopardi debaixo do braço
E uma solidão enorme espelhada
Nas mil e uma janelas do palácio de San Giogio (p. 107)

Pode dizer-se, contudo, que estes poemas nos remetem a um tipo de escrita erudita - cujos maîtres á lire são Shelley e Keats, Pessoa e Hölderlin, Ginsberg e Bowles. Um discurso (tran)sensorial - da desmedida do ser - da verdade do amor como embriaguez e transgressão (em que os protagonistas são o corpo e as vicissitudes do desejo).

carpe diem e hybris trágica

Não há dúvida de que o forte pendor intimista - existencial - da poética de José Soares Martins revela-nos uma escrita onde se põe em relevo a magia e a transmutação (sob o prisma da voz do outro - a retoma do intertexto cultural - a hybris trágica). O impacto desta poesia parece estar na sua marca híbrida, mescla peculiar de transgressão - como um regime compulsivo - de rigorismo - mestria. O que salta à vista é, acima de tudo, o seu lirismo - no fluxo de um idioma sumptuoso - selectivo - (um) a explícita melancolia. Tende portanto, nestas condições, à confirmação (ou refutação) emocional das possibilidades excessivas - à acedia - o carpe diem. Também de denúncia do inumano cuja marca indelével foi a experiência da barbárie nazi que atingiu o seu paroxismo na apoteose do horror de Auschwitz. Um exemplo apenas:

Silêncio. Igual ao de Auschwitz.
Silêncio no comboio da Europa
Que percorre os carris na noite de todas
as insónias
na noite em que me beijas
como a serpente do paraíso… (p. 121)

Alexandre Teixeira Mendes

Livraria Bertrand Dolce Vita
Porto, 18 de Fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

SAGACIDADE DO DESERTO - RESPLENDOR DA LUZ

1.

Onde o inciso - sob a lâmina do irreverente -

A parca desmesura - da imagem intermitente -

Brônquios - que retive - nesse corpo imóvel -

2.

A nuvem do inexorável - que assoma - na retina -

Resplendor da luz - mente recôndita - inacessível -

Pedra dúctil - mapa-múndi - sagacidade do deserto -

3.

Perscrutei as fotos - do incessante - diante das águas -

Acostumei-me à lente nublada - a insistência do branco -

Signo que se extingue - prima facie - desígnio do imerso -

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

DO SENTIR, DA EXCEPÇÃO FEMININA



Do sentir, da excepção feminina

O livro de estreia de Antonieta Barros “Sons da Alma” (Culture Print, Porto, Janeiro 2012) reveste uma indiscutível força poética. Podemos (devemos aliás) afirmar que o que aflora nesta escrita, em extensão e profundidade, é o seu fulcro confessional - enquanto veículo terapêutico-existencial - que oscila entre o catártico e o sublimador. Trata-se, pois, de um livro onde se increve (de forma directa, imediata) um transbordamento pulsional, o próprio eclodir de um corpo seminal (onde se exorciza a configuração amorosa e as suas projecções fantasmáticas).

vicissitudes do desejo

Poderíamos falar ainda, porém, numa poética do dionisismo e da auto-reflexão ou, pelo menos, de uma escrita do “acolhimento” e da “plenitude” - a restabelecer ou a inverter as cogitações da razão e dos sentidos. O carácter prosaico e convencional encontra-se assim assente num erotismo transferencial e (in)contido. Um erotismo que, antes de tudo, refere-se à prevalência de um corpo sexuado ou retenção das vicissitudes (metamorfoses) do desejo: as emoções e os afectos.

(intro)projecções

Todavia, a celebração do amor (signo do impossível) e, no entanto, da introspecção e do sentir (interior, singular, subjectivo, privado) em Antonieta Barros é particularmente importante. Pretendemos assim mostrar a relevância do "inominável" da paixão. É de resto absolutamente certo dizer-se que o que domina (preliminarmente) esta linguagem são os desvãos e os subsolos de um mundo psíquico. Curiosamente uma escrita das (intro)projecções, que reflecte experiências já prefiguradas: l`amour fou.

(semi)dizer

Traço-voz- sons da alma - como pré-requisito. Escrita-una do mundo, mas também viagem sentimental - rastro da totalidade - lógica subtil e impenetrável - em que o descontínuo substitui o contínuo. O que começara como uma escrita-gozo - de forte pendor romântico-intimista - , torna-se a versão de um discurso da alma (Psichê) entre Eros e Ananké. Remete-nos, como sabemos, aos recursos de um (semi)dizer - ao simbolismo do si-mesmo - a uma demanda (que jorra à altura da (com)pulsão erótica). E aqui, mais uma vez, um léxico e uma matéria verbal de auto-implicação - afectiva-emotiva - que emana do inconsciente pessoal e do inconsciente sobrepessoal ou colectivo.

corporeidade e (in)consciente

Em “Sons da Alma” reproduzem-se as disposições ou os devaneios de um discurso singular. Um exemplo da vida escrita - (in)apreensível - enquanto privilégio do emocional sobre o cognitivo. Antes, põe em cena a corporeidade e o (in)consciente: a clivagem amorosa. Não é difícil notar que a intensificação de traços flutuantes - em que o feminino resume todas as formas e mistérios da natureza - é, por sinal, uma intensificação de conteúdos arquétipos da alma humana. O autêntico mergulho na matéria que somos - pôde escrever Jean-Yves Leloup - devolve-nos a alma e, também, a essência. Não podemos separar o que a própria vida uniu: o corpo, a alma e o espírito.


ansiedade existencial

Dá-se, assim, neste livro de Antonieta Barros, o enlace entre o corpo e a alma, a assinatura do mundo. Aqui se revisitam os simulacros do sentir e do sensível - o real da (a)língua - esse desejo de "outrem". Da cegueira do olhar à fantasia - o gozo em excesso ou suplementar - que permanece para além do símbolo - substancializado na prosa. Trata-se simplesmente, como já mencionámos, de um conjunto de textos auto-biográficos - signos - exercícios da escrita - propensos a uma certa unidade - estruturados - letra a letra - por camadas de (in)dizível. E em que o “eu” é veiculado, sem omissões, incorporando a vida significativa, a ansiedade existencial, a intencionalidade poética.

auto-análise

A peculiaridade, decorrente desta escrita, é o seu forte pendor intimista - de acesso ao mundo - que desponta, por conseguinte, num corpo libidinal, evocativo ou não-evocativo, psíquico e de transgressão, sublimado ou não, irredutível. É simplesmente a admissão e o reconhecimento, porém, de uma poética (texto/relato) comprometida com a auto-análise (nossa capacidade de ver e conhecer - com
discernimento - em bases "prismáticas"). E em que essa praticabilidade e conveniência da auto-análise poderia bastar - se o único objectivo do livro de Antonieta Barros fosse o conhecimento de si próprio. Só que a dificuldade crucial da autoanálise - para retomar um pressuposto de Karen Horney - está nos factores emocionais que nos deixam cegos ante as forças inconscientes.

lirismo sentimental

O corpus destas 59 incursões - na sua ressonãncia emotiva e encantatória de carta-endereço - intensa e passional - surge-nos como emblema da sublimação e da efusão sentimental. Textos inextricavelmente (inter)ligados - enquanto concretude dia(mono)lógica - e, portanto, vinculados à imediatez de um discurso cujo “modus operandi” é um pôr em acção a própria emoção. Parte-se do exemplo de uma textualidade - longe dos estereótipos - cuja primazia pertence, por isso mesmo, aos sentimentos, a paixão, a emoção (tudo isso na ordem contingente de um lirismo sentimental).

“daimon”

Poderíamos re-equacionar - talvez em vão - a experiência do sensível a partir justamente dum corpo linguagem ou, se quisermos, dum corpo simbólico, corpo esse que, também ele, tende a tornar-se sentido? Deste modo um corpo - nos seus sintomas e somatizações - e traços significantes - sublimatório? De facto, o corpo como memória - “daimon” - espaço invisível, afectivo ou emotivo, aquém da linguagem, seriam categorias apropriadas para definir o fulcro prosódico de Antonieta Barros. Marca indizível ou inefável - , onde se concentra e exacerba, de maneira exemplar, o desdobramento multifacetado de um eu - o visível da demanda em direcção ao invisível do desejo - os sons e as sugestões visuais - a excepção feminina.


(inter)dependência

É necessário acrescentar que a feminilidade - o ser do feminino - recebeu - desde sempre - sua definição canônica na maternidade. Essa é, porém, uma parte da história, e não a mais importante. Até porque poderíamos avançar a hipótese da existência de uma mitologia social baseada na presunção de que o mundo exterior estava reservado ao homem, o interior à mulher- se bem que a noção da interdependência - em todas as actividades humanas - seja um dado padrão. Mas é essa "nuance" entre "tornar-se mulher" e "re-tornar-se mulher", a que Freud deu tanta ênfase, que é crucialmente importante. Seria errôneo, porém, diminuir a importância da história exemplar de Tirésias. Na tentativa, porém, de desvendar o gozo feminino - o segredo do seu sexo - coube-lhe ser anatomicamente metamorfoseado em mulher durante sete anos. Descobriu, em particular, que a mulher encontra no amor um prazer dez vezes maior que o homem.

Alexandre Teixeira Mendes


Porto, 26 de Janeiro de 2012


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TRAÇO INÁBIL - PARA O ABISMO -

cuidar dos desenhos - e ser a matéria - intransigente - a campânula de pedra - na persistência - deste traço - inábil - para o abismo - não ter casa - morrer no estuário - sobre a luz - recôndita - ignorar a coerência - do êxtasse - as nuvens - do inapropriado -

domingo, 15 de janeiro de 2012

DEVASTE - AMPOLAS DO DESERTO -

- O MAR E AS RIMAS DO EXACTO

nada além - das cercas - a derradeira luz - o mar e as rimas do exacto -

as ampolas do deserto - na noite - lençol do devaste - abat-jour - mapas -

dias que perdi - orvalho - ténue - frémito da voz - sobre o imponderável -

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

DISTINGUOS DO OBSCURO - HERMÉTICO -

sob a irreparável elegia - cuidar da evasão - os presságios - voz repercutida do inerte -

súbita a luz remota do desvario - pedra exacerbada - distinguos do obscuro - hermético -

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

VOZ DA INSÂNIA - TÁCITO FULGOR -

transpondo a voz da insânia - sobre os mapas - o mar de granito - recomeçado - insaciada mente - tácito fulgor - do inominável -

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

JOANA A LOUCA, VOZ DO DESENGANO

ante a insistência de joana a louca - fixei a pedra - medusa - a lâmina - sob a voz do desengano - renunciei à cegueira - do aéreo - obscura palavra - do malogro - editio princeps ? -

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

TOURO QUEDO - NUVENS DO OBLÍQUO -

como esquecer - o não-dito - meu touro quedo - imóvel - a pedra no ar - o sal e o escuro mar -

perpetuar o grito - veeemência da voz - loquaz - lento narrar - monólogo virgem - puro exórdio -

do deserto - chama húmida - ilha recomeçada - lava - sob os mapas do anónimo - céu do reverso -

resgatar o incessante - corpo - luz - desnuda - torpor - da mente dúplice - as nuvens do oblíquo -

vasta e cega argúcia - do desvaste - sarça ardente - palavra velame - som do recôndito -umbral -

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO - POETA DA "URBS"

Activismo, Pulsão e Ebriedade

António Pedro Ribeiro (Porto, Maio de 1968) restaurou o antigo hábito dos “rapsodos” e dos “menesteres”, levando a poesia de lugar em lugar. Em suas andanças revelou-se o poeta da catarse que tem o mérito de trazer à superfície o traço do gozo perdido que só pode ser reencontrado no excesso, no gozo suplementar que se faz suporte da fantasia, receptáculo da causa do desejo. A sua escrita - performance - surge-nos imbuída de um pendor activista. Também aqui uma poesia - enquanto veículo terapêutico-existencial - (mega)político – que oscila entre o catártico e o des-construtor. Poderíamos mesmo falar de uma poética metropolitana: da “urbs”. Trata-se, pois, de uma obra “engajada” - das intro(pro)jecções - ancorada na existência livre de limites ou a paixão de uma liberdade impossível - que denuncia o “vazio” do mundo.

Dicção coloquial quotidiana

A dicção coloquial quotidiana é bastante óbvia no caso de António Pedro Ribeiro. Nos antípodas do bucolismo e da tradição lírica-discursiva - da escrita “sublime” ou "transcendental" - assiste-se em "Café Paraíso" (Editorial Bairro dos Livros, Culture Print, Porto, 2011) - o seu último livro - de forma directa, imediata, - ao próprio eclodir de um corpo-próprio seminal (onde se exorciza a configuração amorosa e suas projecções fantasmáticas). Uma vez mais esta poemática - cênica - tende ao transbordamento pulsional - na confirmação (ou refutação) emocional das possibilidades excessivas. Mas em que a denúncia da dominação do império conjunto - formado pelo poder técnico e a razão económica pura - é um ponto de partida metodológico.

Infinito da negação

Donde acaba o crítico e começa o panfletário, o extraviado ou simplesmente o instintual? O planfletarismo é em António Pedro Ribeiro inspiração: acesso ao optimismo revolucionário (frente à democracia “estabelecida”, “instalada” ou “mercantilista”). Pode dizer-se, contudo, que a sua poesia - cívico-ética - remete-nos ao “infinito da negação”. Assente num discurso do desejo (de eros) que caracteriza a poesia de Allen Ginsberg ou de William Blake - torna-se demanda de “novatio” - um re-assumir do "desencanto" do mundo. Na primazia da dialéctica da revolta e da desobediência civil - do “différend” - acentua a dominante da “teoria crítica” (Reich-Marcuse), do "visionarismo" de Agostinho da Silva e, sobretudo, da “gaia ciência” de Nietzsche. Na sua poesia - desde o início - o protagonista são as três estruturas do “impossível”: política, amor e arte. “Riso soberano”: eis aqui a novidade de categoria muito significativa. É importante ressaltar ainda o privilégio da escrita automática - que nos autoriza a falar da pulsão pura - e enquanto veículo de uma “auto-biografia” ou trama “psico-biográfico”:

escrevemos sobre nós próprios
estamos sempre
a escrever sobre nós próprios
nada há a fazer
desenvolvemos este estilo
é claro que também
nos referimos aos outros
à televisão omnipresente
às riquezas
ao cacau
mas estamos sempre
a falar de nós próprios
num monólogo sem fim
é isto a vida
é isto a escrita
e é isto que sobra
de um dia de tédio (p. 77-78)

Id dionisíaco

Nesta obra perpassa – como dissemos antes - a vida escrita - os impasses do escrever. O que entendo aqui por exortação à libertação do "id" dioníaco. Não é difícil notar o seu apego à insânia - pathos da loucura - ou o privilégio do êxtasse e da ebriedade. Porque “Cerveja-matéria prima do poema” (p.34). Seria possível falar da afinidade entre o tipo de poética de António Pedro Ribeiro com a geração “beat”: a psicadelia e a contracultura. De facto, desde o início das suas “démarches”, António Pedro Ribeiro procurou ampliar e fortalecer o activismo político enfatizando a dimensão da ebriedade - contra a razão e a administração da vida – unindo-se a Rimbaud e Nietzsche. Mas é Raoul Vaneigem de “Arte de Viver para a Geração Nova” e o mercado pariense de ideias que oferece ao poeta um modelo: o da lição situacionista (de uma existência liberta do gregarismo e da massificação). Para António Pedro Ribeiro a ebriedade tem também a sua forma e a sua figura:


Bebo cervejas no inferno
Mas quero o paraíso
de volta (p.30)

Excesso e transgressão

Em “Café Paraíso” re-equaciona-se a experiência do sensível - a partir justamente dum apego visionário - que revela e permite ser - ou, se quisermos, dum corpo linguagem (de articulação lógica-prosaica). Deste modo um corpo dionísiaco enquanto corpo pulsional - nos seus sintomas e somatizações – transferência e traço significante, excesso e transgressão. Nesta sua escrita concentra-se e exacerba-se, de maneira exemplar, uma poética catártica, em que, por sinal, a corporeidade, o estofo do ser, como diria Merleau Ponty, está prenhe de significado. Aqui o eterno existe no efémero, mas o contingente anseia e clama pelo absoluto:

procuro a eternidade
do instante
não me adaptei à vida burguesa
às conversas do senso comum
à vulgaridade do intelecto (p84)


Trata-se de uma poesia (composta de palavras-chave no sentido estrito) que enaltece a auto-reflexão: é daí que tempos de partir. Em que há também um estranho exercício crítico em torno da sociedade autoritária “unidimensional”. Por fim, o questionamento dum mundo dominado por critérios de eficiência e sucesso e, por conseguinte, assente na “auto-escravização” do humano.

Iconoclastia e irreverência

O conjunto dos poemas de António Pedro Ribeiro exibem, em seu contexto de significação original, um forte pendor ideológico - enquanto propensão crítica do capitalismo avançado e, por conseguinte, da desmontagem das falsas boas intenções burguesas. Ademais depreciativa e fustigadora do poder e dos seus símbolos - neoburocracias, comissários e aparelhos repressores ideológicos - vícios públicos, virtudes privadas. Insistimos: trata-se de uma escrita psico-emocional - como fragmentos de uma auto-biografia. Poderíamos dizer que neste poemário - nos passos do “politically incorrect” - perpassa a questão da hybris, desmedida do ser, da verdade da poesia como embriaguez e transgressão. Outro exemplo notável de uma poética da iconoclastia e da irreverência ou “pour cause” da “reverie” política ( tipo marxista pós-moderno - na exigência da auto-gestão emancipalista).

Café-Bar Olimpo Porto, 21 de Dezembro de 2011

Alexandre Teixeira Mendes

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"SCINTILLA ANIMAE"

“Saltus Sublimis”

Teremos de admitir a hipótese de incluir Alma (Psichê) e Amor (Eros) numa única “mot (palavra) valise”. O mito de Psichê narrado no livro O “Asno de Ouro” de Apuleio (125-170 d.c.) - refere-se justamente a uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Chegamos, aqui, à questão de Eros em Psichê e Psichê em Eros - o Jogo e a Criação - o “Saltus Sublimis”. Daí decorre a Escrita do “Caos-Cosmo” - ainda uma vez “Psi”-"Emersa" no “Dictamen Obscuro”. A assinatura do Mundo - Eros - o seu “Semi-Dizer” - “apex mentis” ou - no dizer de Mestre Eckart – “scintilla animae”.

Pulsão sexual

Pode-se, portanto, dizer, que Eros - força da vida - tornou-se uma parte de Psichê. Mas onde vemos, por conseguinte, que o aparelho psíquico integrou, pois, Eros - que - no entender de S. Freud - "mantém unido tudo o que existe no mundo”. É, pois, de considerar - na formulação “standart” da psicologia analítica - a função sexual e o seu expoente - a libido – como base do que conhecemos de Eros. Falamos, conforme se pressume, do traço de união somatopsíquico e, portanto, histórico, em que a dinâmica sexual seria inseparável da temporalidade. Tome-se como exemplo – como nos diz André Green – o vórtice Eros - que “desempenha então a função paradoxal de ser, ao mesmo tempo, uma abstração e aquilo que permite que se represente a pulsão sexual encarnada nas figuras em que, simultaneamente, se revela e se dissimula” (Les Chaînes d`Eros – Actualité du sexuel). Constatamos, pois, que a concepção exposta da libido que está sempre activa deriva de Freud. Mais importante ainda foi a concepção bioenergética da mente. Podemos permitir-nos, neste contexto, falar – segunda a expressão aristotélica - da dynamis, “energia potencial” (de deina, “penetrar em”) e da energeia, “energia em acto” (de ergon, “trabalho”). Trata-se também aqui de assinalar, explícita e implícitamente, o núcleo indivisível da psicanálise: Eros e as pulsões de destruição (Thanathos).

Alta tecnologia, "dominium"

Convém, no entanto, ter presente o papel decisivo aqui desempenhado pelo teoria da unidade físico-psico-espiritual do homem - segundo a concepção aristotélica-tomista - que ganhou na ciência psicoterapêutica moderna novo significado. Assim, pois, no quadro da con(di)vergência de pontos de vista quanto à natureza da alma (psichê) e do amor (eros), a noção já expressa da lógica humana demoníaca tem um carácter costumeiro, tradicional. Comecemos do princípio: lembramos que o diabo é, pois, - segundo C. G. Jung - uma variante do arquétipo da sombra, isto é, do aspecto perigoso do reverso não reconhecido da alma humana (Acerca da Psicologia do Insconciente, Lisboa, 1967, p. 116). Vale a pena, porém, reter que a revolução industrial destruiu progressivamente a ideia de universo sagrado. Ainda aqui a religião tornou-se assunto entre o homem e Deus (de maneira a pôr em evidência o aspecto ético-legal). Mas é igualmente justo assinalar que a ciência tomou o cosmos para si - e neste caso metamorfoseou-se em advento da alta tecnologia ("marca" - segundo Heidegger - do destino ocidental) enquanto ponto culminante da dominação (precisamente a "catástrofe"). Essa racionalidade que se exprime na liquidação de homem e da terra pela grande indústria e potência militar, caracteriza, pois, toda a sociedade moderna baseada na mobilização (traduziu-se, por exemplo, numa sucessão - como assinalou Henri Laborit - de servomecanismos hierarquizados). Exprime-se, como já tivemos ocasião de ver, na expansão (planetização) industrial - surgimento de megalópoles - e na defesa da permanente inovação - a diferenciação - enquanto herança e dogma da modernidade. Partiu-se - notar-se-á - do pressuposto que toda a comunicação deveria ser explícita e pública - na própria sujeição da palavra enquanto persuassão pública - em lugar de ser expressão privada - relação com o “dominium” - a política.

Gnosis

Podemos fixar a nossa atenção, por um momento, no processo descrito como exploração da alma (psichê) que se tornou - explicitamente - no contexto do ensinamento gnóstico - uma demanda espiritual-religiosa. Analisa-se ou concebe-se o nomear adâmico - remetendo ao saber esotérico - o corpo e a voz associada à terra - as palavras não-escritas. Considerando, portanto, a prossecução do "auto-conhecimento" (enquanto chave -directa ou indirecta - da compreensão das verdades universais - da palavra perdida - e que permanece representada pela "intuição"). Mas (seja qual for o nosso caminho) a via solitária e interior da "gnosis" envolve - aparentemente - o reconhecimento das "forças alucinatórias" do conjunto da fé que implica o "divino" - a demonologia das origens , "satã".

Religião da natureza e da salvação

Trata-se, portanto, de analisar aqui o que há de típico no significado da adoração ou o ateísmo da revolta (num tempo em que a religião - à sua maneira - se metamorfoseou progressivamente em "ética"). A todo o instante perguntamo-nos se é equívoco referir o duplo paralelismo entre a religião e o erotismo, inclusive - como tenta mostrar Walter Schubart - o da continuidade entre o eros procriador e o êxtasse criador, e da dialéctica do eros redentor e da religião da salvação . Podemos analisar aqui o que há de tensional - círculo vicioso - na religião da natureza (centrada no parto e na maternidade através da devoção- criação) com a religião da salvação (incorporando a criatura separada do seio materno e, no caso, remetendo-nos à nostalgia da origem).

Lirismo cortês e catarismo

Constamos, pois, que a Provença foi o ponto de partida de um movimento erótico que inspirou a poesia dos trovadores e a espiritualidade franciscana. Nesta vaga erótica, o culto de Maria desempenhou um papel muito importante - porquanto - como indicou Walter Schubart - a ideia matriarcal cede passagem a um culto romanesco da mulher que não se enraíza mais na experiência do êxtasse criador. Antes de explorarmos, porém, as implicações do "trobar clus" - com a poética hispano-arábe ou hispano-judaica, devemos examinar ainda que rapidamente, alguns dos argumentos que foram usados, ou poderiam ser, para justificar a tese cátara. Graças, em grande parte, à obra hermenêutica (desocultadora) de Eugéne Aroux, Sâr Péladan, Sampaio Bruno, Teixeira Rego ou Otto Rahn, essa teorias começaram a ser compreendidas, pela primeira vez, durante a II Guerra Mundial. Seus proponentes não hesitaram em fazer notar que o lirismo cortês foi inspirado pela atmosfera religiosa do catarismo. Dennis de Rougemont em “L`Amour et L` Occident” (1939) referiu-se ao profundo vínculo entre cátaros e trovadores (onde se faz ressaltar a lógica conjunta do erotismo provençal - se se considera o amor galante - as forças e os valores femininos). Subjacente à nova poética trovadoresca - nascida na França do Midi - pátria cátara - assente na celebração da cortesia e no culto do amor (contra o casamento) - os Fiéis de Amor - surge-nos - com efeito - uma nova categorização da mulher inseparável do grande modelo ocidental da linguagem do "amor-paixão". Assim, passou-se progressivamente desse impulso fundamental em torno de "a puela"- a jovem solteira (adolescente) - para "domina" (senhora). O provençalismo que nos é apresentado poderia ser definido como a primeira corrente literária galego-portuguesa - que utilizou - seguindo as pegadas da língua d' oc - todos os recursos técnicos disponíveis. Parece, com efeito, que a cultura trovadoresca - a "gaya sciência" - na consagração de uma escola do livre pensar nas cortes provençais - segundo Luís Espírito Santo - está indissoluvelmente ligada à crença na força libertadora do erotismo. Na (con) celebração da paixão extra-conjugal - adulterina - onde se colocava o assento - não sem consequências - na incompatibilidade entre o amor e o matrimónio - vislumbra-se a doutrina cátara (apoiada principalmente na referência dual ao mundo invisível - divino - e visível - diabólico). Parte-se portanto do Amor (Roma às avessas), anti-Roma. Algum significado pode também ser atribuído à ligação de D. Diniz - rei e poeta frequentemente obsidiado por imagens eróticas - aos templários: o culto do "Evangelho Eterno" e do Espírito Santo.

Psicodélia

A experiência psicodélica - habitualmente caracterizada pela percepção de aspectos da mente anteriormente desconhecidos, inusitados ou pela exuberância criativa livre de obstáculos - exerceu papel saliente no quadro das tradições arcaicas. Parece haver indícios veementes de que a êxtasse e a ebriedade tinham suas formas e suas figuras. É aqui que entra em jogo a via amorosa ou erótica, a via dos mistérios, a via profética e a via poética (já em grande parte focalizados por Platão). A verdade enquanto visão ou escuta, por si só, bastaria para aludir ao “voo da alma”. Provavelmente o exemplo mais claro - tradicionalmente minimizado - se encontra nos Mistérios de Elêusis (que se baseavam em ritos religiosos dedicados à Deméter e sua filha Perséfone). Imperadores, artistas, filósofos, poetas - conquanto todo o tipo de gente - passaram pelo seu "telesterion" (grande salão construído para rituais de iniciação). Para a compreensão da natureza real dessas cerimónias torna-se necessário considerar certas doutrinas, que sob a forma de mito, o teatro sagrado e a poesia, integravam um viático específico de modificação da consciência (na prioridade dada às substâncias visionárias). Poder-se-ia aludir à renovação da vida, a integração da vida e da morte no próprio projecto divino, a abertura ao espírito e a finitude.

"Ubíquo vento", ruach

O papel primordial, na mística judaica, da vida sensível - a criação (poiesis) comum à divindade e ao homem - o fulcro simultâneo do humano com o mais-do-que-humano - revela-se claramente ainda maior, se se considera a importância da hipóstase feminil de Deus (schekkiná). Poderemos distinguir de modo preliminar, no modelo cabalístico, a criação, revelação e providência, ou - como propõe Moshe Idel - os vasos que medeiam a presença do divino nos domínios do extradivino. No "Zohar - O Livro do Esplendor" - chama-se a atenção - com toda a evidência - para o facto de a união entre os humanos e Deus ser melhor efectuada por meio da "respiração". Aceita-se, pois, que "o sopro de Deus" impregna toda a natureza. Pode-se mesmo dizer que é o "ubíquo vento" ou o "espírito" - "ruach" - que dá vida ao mundo sensível. De notar que a cabala - como anota Maurice Ruben Hayoun - pretende ser simultâneamente uma física (poética) e uma metafísica: esta visão do universo concebe seres vivos como membros do cosmos.

Yin/Yan - Animus/Anima

A doutrina clássica chinesa parte do reconhecimento - e isto é notável - tendo em conta as chamadas neuro-ciências actualmente em voga - de que somos máquinas eléctricas e vivemos num vasto campo eléctrico e electromagnético. Podemos hoje acrescentar a nossa estrutura genética, nomeadamente a neural, que determina o essencial do que somos. A questão que propomos considerar aponta todavia para um ponto essencial - donde parte a acupunctura chinesa - é a de que há, pois, necessariamente correspondência exacta entre os ritmos biológicos e os ritmos cósmicos - principalmente, os do sol e os da lua. A própria ordem do mundo - tao - assenta - nesta casuística - no equilíbrio entre o elemento frio, sombrio e feminino - o yin - corrente ascendente - e o elemento quente, solar e masculino - o yang - corrente descendente. Chegando aqui, pode-se, na verdade, afirmar que animus e anima - como assinalou C.G. Jung - correspondem ao arquétipo masculino e feminino (sendo que S. Freud invocará, por sua vez, o "pólo paterno" e o "pólo materno", onde se associam os complexos de Édipo e de Electra). De facto é hoje lugar comum falar-se do "hemisfério esquerdo" do cérebro (pensamento conceptual, verbal, sequencial, temporal, digital, algorítmico, lógico, racional, metódico, sistemático) e do "hemisfério direito" (pensamento estético, não verbal, simultâneo, espacial, analógico, heurístico, sintético, intuitivo, emotivo, improvisado, variável). Poderemos distinguir - em última análise - as dicotonomias razão-emoção, analítico-sintético, ciência-arte, mente-coração, vontade-sensibilidade, sol-lua, logos-pneuma.

"Augoeides"

É a Herman von Helmholtz – médico e físico alemão - que remonta a tese de que as únicas forças agindo nos organismos eram de natureza física-química, e que o homem não era de facto mais do que uma máquina. Para nos convencermos como semelhante concepcção é falsa, basta atentar para a chamada teoria electrodinâmica da vida avançada por Harold Saxton Burr e F.S.C. Northrop em 1935. Importa, porém, estabelecer, a este respeito, a sua correspondência exacta - similaridade - com os antigos textos relativos ao corpo vital ou etéreo e à aura humana. Somos conduzidos, assim, à noção de corpo bioplásmico ou corpo vital descrito pelos Vedas da Índia antiga, e o corpo sideral que figura nos escritos de Paracelso. Outro critério pode servir-nos para caracterizar a aura de luz - “augoeides” - conforme a expressão de Porfírio - assim, por exemplo, o “daimon” para os gregos e o “atman” para os hindus - ou ainda, nas suas variações e gradações, a teoria vitalista moderna. Os próprios conceitos da nova física - nomeadamente a mecânica quântica - revelam-nos então novos dados que parecem ter correlação directa com os ensinamentos dos místicos quanto à natureza da vida e do universo.

Animal Humano

Em “The Murder of Christ” (1953) Wilhelm Reich referiu-se aos múltiplos impactes da “peste emocional” - na época actual - que é formada e mantida sobre o medo das sensações orgânicas. Parte do problema torna-se, assim, o da estrutura mecanizada e couraçada do homem em íntima ligação com a tragédia do “animal humano”. O corpo é comprimido - incapaz, desde o início, de superar os bloqueios da energia vital - primeira e universal - divina - a energia orgone. É , todavia, a estrutura do aparelho psíquico blindado, que origina a inabilidade para governar a sua vida. Deste modo se torna fulcral desenvolver, uma vez mais, a autodeterminação humana (partindo da complementaridade entre a vida bioenergética e a vida social). Referimo-nos já à necessidade de uma verdadeira "metanoia" ou conversão. Pois, como já ressaltamos, o mal é uma criação do homem. Neste assunto trata-se especialmente de desvendar (ex (im) plícita mente) o mal-estar do "individuum". É precisamente a observação, sob diversos pontos de vista, da irrupção da insanidade em massa - do medo (de si próprio) na idade da propaganda - que conduz à escravidão. E, contudo, ainda se nos revela algo mais: uma psicologia de massa do fascismo que (re)produz os zé-ninguém - os paroxismos do ódio incompreensível - a violência e o terror - e principalmente o ódio ao Vivo.

Absolutização do signo

Poder-se-ia aceitar primeiro e em maior grau a noção revelatória da poesia. Pela sua natureza é ao mesmo tempo absolutização do signo e o esplendor do significado. Bastará falar dela aqui enquanto totalização da predicação. Será útil que nos detenhamos num ponto: a vida escrita (para invocar os impasses da letra e, por assim dizer, as projecções do insconsciente). Ou de outro modo: a poesia como particular reflexão da linguagem sobre si mesma (enquanto contra-discurso, an- arquía, sacralidade, opacidade ?).

Epifania da visibilidade

Sublinhe-se que quando falámos da tessitura simbólica do mundo nos referimos, em princípio, à sua pluralidade fenoménica. Torna-se necessário ligar o pensamento nocional (ou "noético") - a ratio - da sua nascente viva que é o pensamento real (ou pneumático) - o "intellectus". Dir-se-á, por conseguinte, que toda a manifestação - todo o sistema na sua complexidade - comporta - sabemo-lo - um triplo aspecto: macrofísico, biológico e quântico (microfísico e psíquico). Levanta-se então o problema da univocidade lógica que não se põe ao poeta: já o dissemos. Vamos, por um momento, admitir que a sua voz torna-se oblíqua, isto é, assumpção "ex-cêntrica". "O seu modo - retomando a tese de Geofrey Hartman - é o infinito. Cada estrofe sugere uma etapa que nunca se atinge - a da epifania da visibilidade".

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SYMMETRIA DO IMERSO - VIGIAS DO ABISMO -

- O OLHO SUBLUNAR -

sob o rebordo - do telescópio - o ecrã indefinido - amálgama de luz - estrita - symmetria - do imerso - céu renhido da astronomia - o olho sublunar - reflexo nas lentes - entre estrelas - a inarticulada voz - do opaco - vigias do abismo -

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MORTE QUE PUDESSE - ESQUECER -

como a lâmpada - do exasperado - morte que pudesse - esquecer - para obviar a dor - irremediável do incerto - a memória do fulgor ? -