sobre a montanha de s. geneviéve permaneci errante - filósofo de piedade - um homem só -
amigo assíduo de abelardo - santo desconhecido - perscrutei o irrevogável - a indolência -
hei-de livrar-me desta casa - de traves de carvalho - onde outrora o júbilo me abandonou -
por esta noite suspendo a argúcia - desisti de crer - no imponderável - sou - um outro lázaro -
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
REGISTO DO DIMINUTO - J.S. BACH - O IMPERCEPTÍVEL GRAMOFONE -
1)
no registo do diminuto - escutas - j.s.bach -
tardia desesperação - voz do condicional -
2)
dia após dia - o imperceptível gramofone -
som - do minucioso - pulsar do inaudível ? -
no registo do diminuto - escutas - j.s.bach -
tardia desesperação - voz do condicional -
2)
dia após dia - o imperceptível gramofone -
som - do minucioso - pulsar do inaudível ? -
3)
por sobre o rasto do insone - persistes imóvel -
na quietude do ar - a lucidez do exasperado -
4)
junto do mar - de sal - o branco irrevogável -
a retina do assíduo - escassez do irreconhecível ? -
por sobre o rasto do insone - persistes imóvel -
na quietude do ar - a lucidez do exasperado -
4)
junto do mar - de sal - o branco irrevogável -
a retina do assíduo - escassez do irreconhecível ? -
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
INEXAURÍVEL SEGREDO - VOZ DE PERSÉFONE -
sob
o inexaurível segredo - a voz de perséfone -
o
que se entrevê - junto à escrita - do
insone -
por
sobre o intento da palavra - o
submergido -
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
DICTUM ALTHENTICUM - RICTÚS DE MALLARMÉ - A INADVERTIDA VOZ - DE HERODÍADE -
1.
nos confins da mente - irrevogável - o tigre - o rictús de mallarmé -
o que perpassa - no dictum althenticum - essa especulação indefinível
? -
2.
da elegia te manténs - música láctea - inarticulada voz - de herodíade -
pressuroso de inactualidade - esquecido de ser - a histeria - o utérus ? -
3.
permanecer na película - cd-rom - vácuo - peyote aclarado -
zapping - sonho-visão - equação - a terminologia do indizível ? -
2.
da elegia te manténs - música láctea - inarticulada voz - de herodíade -
pressuroso de inactualidade - esquecido de ser - a histeria - o utérus ? -
3.
permanecer na película - cd-rom - vácuo - peyote aclarado -
zapping - sonho-visão - equação - a terminologia do indizível ? -
4.
sob o som que soçobra - na obstinação do inábil - submerso inexprimível -
a incumbência da palavra - insubstituível - ímpeto do signo - inverossímel? -
quinta-feira, 11 de julho de 2013
CIFRA - DITAME OBSCURO -
o que
aflui - na pedra e cal - espaço - acúmulo - de figuras
-
cúpula - nublada - do sumptuoso - que transpus - ranhuras -
cúpula - nublada - do sumptuoso - que transpus - ranhuras -
pluma de ave - dragão - serpe - recôndita - do imponderável -
ditame obscuro - prédica - cifra - incumbência do inexorável -
terça-feira, 9 de julho de 2013
TÉSSERA DO LATENTE - INFALÍVEL IGNOTO -
tácita
mente - téssera do latente - incomensurável -
infalível
ignoto - tácito que exalto - assiduamente?
segunda-feira, 13 de maio de 2013
INCONGRUÊNCIA DA FALA - O OSSUÁRIO -
quem
se detém - na nudez - do peremptório - abdicando
da voz - permanece no recôndito - sobre o deserto - ressurge na incongruência -
da fala - seu túmulo de pedra - o ossuário -
segunda-feira, 15 de abril de 2013
ÉCLOGAS DO EXANGUE - PROFUSSÃO DO IMPONDERÁVEL -
por sob as éclogas - de bernardim ribeiro - a intransigência do inexplicado -
infindável - mente - écran - voz célere - do inábil - alento irreversível -
ante a casa antiga - a inevitabilidade da pedra - os jacintos - a torre inabitável -
no intento da luz - indissolúvel - os mapas do insano - profussão do imponderável -
quinta-feira, 14 de março de 2013
A SUBMERGIDA - MENTE - IGNOTA MESTRIA - AQUIESCÊNCIA - DO ERRÓNEO -
sob o frémito
da noite - inabalável - a submergida - mente - ignota mestria - (in)saciedade da palavra - aquiescência - do
erróneo - viagem inegualada -
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
DO MUNDO MOVENTE, EVEMENCIAL, FÍLMICO EM AURELINO COSTA
Uma poética dos sincretismos icónicos e
devocionais
A referência que se destaca
entre todas as outras, em “Domingo no Corpo” de Aurelino Costa, é a da realidade
fílmica - a imagem-movimento - que coincide também com o material plástico e
humano - sob a fluidez (a magia) do sensível. Poemas-fotogramas - campos visuais
–textos-chave - onde se (re)afirma(explicitamente)- na sequência de um enredo
cinematográfico - um “eidos” do dessasssosego.
Látego filme do que não há
encanastra até ao gume tudo o que nos
consome
amor dório
estardalho lume
foco a verruga no olho casto
mergulho o cabelo comprido no lago do
teu
unto a zinco o seio no húmus da luz sistina
dos séculos
quando?, até quando sacro orvalho da manhã
d`outono
onde dispo o sonho?
(“o dia de hoje!”)
Percebemos delinear-se aqui uma
poética ancorada num ascetismo hiperbólico - uma (capital) depuração da
linguagem - onde se aglutinam metáforas da materialidade ou da vida orgânica
(conquanto evemenciais). Que é, pois, rigorosamente, uma poesia da
obliquidade - do quântico - que se reclama do campo do (in)dizível. Ela
exibe um certo compromisso de purificação, conversação e iniciação: coloca-se
regulado pela empiricidade do corpo enquanto desejo (que não é apenas polimorfo
e perverso é também mórbido).
ultimou insaciável a
encomenda:
o meu futuro é a morte.
em girândola fosca piscou
argonauta e saltarico
na engrenagem em válvula
submeteu-se ao futuro
prescrito na gôndola da
memória descascou a língua
muito calmamente como quem
aguça a farpa
mostrando a omoplata a
descoberto da noite
entoa uma gargalhada onde
peristilo alberga
a grande metáfora da
purificação
(“o dissolver”)
Do ápice (retiano) visionário
Consideremos, antes do mais, a
persistência de uma escrita - em escala microscópica - no ápice (retiniano)
visionário –halo (impulsivo) psicótico
-da “inscrição originária”. Assim se esboça uma poética das intensidades
e das fulgurações –das múltiplas e indefinidas intersecções –dos
“puzzles”ou imagens(sur)reais.
Sucintamente: uma poesia onde se descarta a circularidade viciosa da mente
(rescógita). Efectivamente, este poemário, situa-se num plano em que se
conciliam a percepção inconsciente e subliminar. Trata-se de uma escrita
compulsiva, tomada como um todo, que nos remete à evanescência do tempo. Aqui se
conjuga – como se supõe - para usar as palavras de André Green em “LesChaînes d
` Éros” - a força (dinâmica da pulsão) com o sentido (vectorizado pelas
representações de palavra da fala).
Agasalhei a febre líquida em
antuérpia
e balbuciei o nome da rã
por lagosta
não mais a leprosaria dos
escombros
mediu a aresta do gozo
prosélito recordo uma mão metálica
que me faz subir a estação
e engrossar a língua de tanto
gemer
até o confesso da chalaça
aquilatou ideias
como falar papas?
Mistura-se sangue em gema d’ ovos
e leva-se ao forno a alta
temperatura
até que o vapor condense
no fundo da boca
(“uma febre fenótipa das bruxas
elas”)
Da pulsão do real e do catolicismo
afectivo
A poesia de Aurelino Costa
surge-nos, em suma, inspirada no uno-todo - a ideia de cosmos - num tempo em que
a natureza foi dessacralizada. Podemos falar, no fundo, de uma poética de teor
religioso (existencial) que - sem fazer apelo à “hipótese Deus”- nos surge
identificada com a proclamação da palavra (desfilando suas experiências da
quotidianeidade e dos objectos comuns poetizados - ou, mais simplesmente, dos
cenários dos animais e da terra animada). É, todavia, a partir do desejo
(deslizante) e da linguagem (movente) que podemos deduzir a “pulsão do real”
nesta escrita. Que incorpora, desde o início, uma tensão entre o sagrado e o
profano. Nas projecções e introjecções de um catolicismo afectivo (longe das
predisposições beatas, dogmatistas, obscurantistas, de ghetto), é crucial falar,
se se preferir, de uma obra do detalhe minucioso - consubstanciando um
expressionismo abstracto - tensional. Podemos descortinar núcleos metafóricos,
rastrear influências, supostas ou reais, enquanto registo ou captura da vivência
humana.Parte-se da “experiência absoluta” que, como assinala p. ex. Emmanuel
Levinas, “não é desvelamento, mas revelação”.
o silêncio mármore do lampadário
arde
enquanto move líquido a fala de
bispo
poderei ressuscitar a cobra aos pés da
santa
- a garupa teme os salmos mais tensos
como oscilar entre o martírio
renegado
e a comunhão dos hospícios?
move-me o perímetro da testa…
por litro?
- entre arcanjos?
(“gominhos d`alho doce”)
da paradoxalidade e do fatum
Começamos a poder elucidar, em
pormenor,a natureza e o alcance desta poética de acoplamentos (inusitados) - sob o signo da paradoxalidade - mas onde se
pressupõe, desde o início, o fatum - o “sentimento trágico da vida” (que
experimenta o ser humano).
estender as mãos
no peito elegíaco da memória
debruçar sobre as anémonas
neste dia de tragos húmidos e
verdes
de sol borracho e intempéries
colher hálitos de begónias
selvagens
e não morrer
há um pathos maior
e coagulador
neste fado
(“à excepção”)
A escrita de Aurelino
enraíza-se na escuta poética da natureza. É preciso reconhecer que a antiga
aliança foi quebrada. Na “relevância” - na pertinência e na actualidade da
psico(pato)logia - onde a “coisa em si” é o ser humano. E é exactamente uma
escrita elegíaca e melancólica (no seu foco próprio e sentido amplo) que também
tem fontes arcaicas e religiosas (sincretismos icónicos e devocionais). O
aspecto penitencial de alguns dos seus textos exerce, muitas vezes, uma função
terapêutica.
Da intentio de desconstrução e do “zoo
humano”
Uma escrita de concisão verbal
- no seu intentiode des-construção -
onde se descobre o “zoo humano” - o “parque zoológico” (na fórmula de Peter
Sloterdijk) - onde se interpõe a
(re)consideração radical do humano. Será útil que nos detenhamos no
carácter ambíguo e complexo da sua linguagem - no continuum situacional do que
nos transporta ao animal humano ou o que podemos chamar pathos: por um lado, o
fluxo caótico do real, a incompletude ontológica; por outro lado, o vazio, o
abismo onto-existencial que atravessa e define o homem. No seu influxo lírico e
religioso onde se amalgama o tempo não-conciliado - o caos-cosmos - a
imagem-movimento (referida ao sublime) e uma certa hybris (sensível, pensante) -
descortinamos, no entanto, lógicas seminais
derramo sobre o tojo
a sede e o veneno
lavar-me-ei mais tarde
o meu corpo etiquetado
aproxima-se de outro
aguarda, o costume.
qual o lado da verdade quando se
alapa
e trunca sobre o poder sua farpa de
origem:
ou morres ou és sacana, estás comigo ou és
contra mim?
(“lavar-me-ei mais
tarde”)
do proprium, do si, do self
Os seus poemas interpelam,
circularmente, se assim podemos dizer, o homem - do latim homo - cuja etimologia
é da mesma raiz da palavra húmus (terra) - que padece de uma essencial
fragilidade e transporta em si o inusitado e o (des)integrativo. O incontestável é que - na sua escrita -
entrecruza-se a referência a uma atmosfera subjectiva de enaltecimento e
revelação da humana conditio - através da path-ética - onde se restitui à psychè
o seu lugar próprio no composto humano. Mas neste caso a dialéctica da
individuatio - do proprium, do si, do self - a (in)vulgaridade do existir.
Tocamos, aqui, no reconhecimento de nossa dependência e vulnerabilidade. Não se
pode perder de vista o importante facto de que somos seres únicos e irrepetíveis
- intrinsecamente feitos de ilusões e - havemos de concordar - falíveis -
permeáveis aos erros - esmagados mais uma vez pelas “grandes narrativas”.
Vemo-nos, claramente, confrontados com a (im)possibilidade da pureza e do
milagre: a própria inacessibilidade da felicidade e da redenção (salvação).
da compulsão à repetição
Em Aurelino Costa
defrontamo-nos com os nossos actuais descontentamentos - para usar uma expressão
de Tony Judt - se nos confinamos à política do medo - o culto da privatização -
e, portanto, o feiticismo do dinheiro e da mercadoria. Apercebemo-nos desse
singular paradoxo: a solidão efectiva, a psicose como forma de existir
(Binswanger). Pense-se, por exemplo, na tendência à repetição ou compulsão de
repetição que é - segundo Freud – a característica mais relevante do neurótico.
mar ingente os hipermercados
bocas de fome as embalagens
as luzes que tremem são teus olhos
incapazes de (a)pagar a
electricidade
o design do nada nas palmas o silêncio
que fazem no verde código verde?
Oficiar avés na ladainha dos
preços?
passam de carro as caras aquecidas
não tens lugar para o choro, resta-te o
frio
dos cartões ninguém se descarta:
contaste 12 visas e masters na
carteira
que encontraste sem código
alguns vizinhos teus do sub
murcham a óptica em direcção à
esperança.
tu desligas as tuas luzes.
talvez não acordes.
(“mar ingente os
hipermercados”)
do (in)vertebrado
Cabe ainda uma reflexão sobre o
fulcro do desejo (da voluptuosidade) nesta escrita impregnada da afirmação
objectal. Aqui radica a dávida (agapé), a caritas, o sacramental, a fidelidade
vinculativa. Parte-se várias e reiteradas vezes da sacralização da vida
quotidiana - da errância e dos meandros do mundo movente e onírico (a face
bivalente das coisas) - da convicção nobre e antigaa de que tudo está ligado.
Dito isto, será fácil de compreender uma poética(in)vertebrada -da veneração e
da vibração panteísta - no compromisso do que mais importa (Plotino)- impregnada
da beatitude e do desvario - da instância cinematográfica-musical -a consabida
extroversão. Seja como for, o certo é que a poética de Aurelino Costa coloca-se
na direcção de um reconhecimento da primazia do impulso, do corpo, do sensorial,
do genital.
Subtraído e alheado o testículo anelar
sobe e desce a súbita garganta
descarrega o pássaro
na bota
o apostolado em orgia branqueia o
vinho
os congregados adormecem
que repouso
(“sem, tudo é mais tranquilo e
doce”)
da iluminação e do
(ir)representável
Haveria muito a dizer sobre um
tipo de escritura poética que interiorizou a veemência da “iluminação profana”
(Walter Benjamin), pressupõe um privilégio do emocional sobre o cognitivo..E que
permanece, rigorosamente, uma poética da “circunstância” biográfica” (onde se
perscruta, no seu aparato, o “script” da vida). Neste contexto, reveste-se de
particular ênfase a relevância concedida ao corpo pulsional (sexuado) apossado
pela linguagem e que é fonte de uma potência subversiva (o daimon, o oráculo
interior). Encontramos aqui também claramente subjacente a noção de que o
conceito de (com)pulsão pressupõe a linguagem e a ordem simbólica. Não há dúvida
de que é o surgimento da palavra que faz emergir, concomitantemente, a ordem
humana. Lembremo-nos que a escrita - que se interpõe no caminho do corpo -
passivo - subjectivo -é, em diferentes níveis, a metáfora do silêncio
Pressupõe-se que o vazio é o silêncio da palavra. Assim se encontram misturadas
a linguagem depurada (dentro do cânone da poesia clássica) e as expressões de um
poetizar desviante (entenda-se: impuro, “bizarro”, “niilista”). A ênfase está na
sua associação ao indecifrável. Já o cut-up, a montagem, no pressupor a escrita
como traço do (ir)representável, que dá voz (e a voz) ao (in)comunicável.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
NOSTALGIA - DO SOLÍCITO - LYROSOPHIE - CÓDICES DO AÉREO -
como fixar os mapas -
do inabalável - na iminência do mar - de
sargaços - escutar - seu corpo - inábil - do ar - da água - o incomensurável -
sob o inerme - a pronunciação que não cessa - a paráfrase infinita - voz do intérmino - nostalgia - do solícito -
sob o inerme - a pronunciação que não cessa - a paráfrase infinita - voz do intérmino - nostalgia - do solícito -
lyrosophie - injunção- (sobre)posição - da palavra - ténue
saciedade - da pedra irremovível - a areia e o mar - códices do aéreo -
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
SAL DO IRREVERSÍVEL - SERPE DE OURO - O DILÚVIO QUE TARDA - SERPE DE OURO - PEDRA IRREDUTÍVEL -
resta-me a sucinta câmara
- as fotos - do promontório - sobre o sal irreversível - os mapas - que não
decifro - ilha - serpe de ouro - pedra irredutível - o dilúvio que tarda - num corpo só - a voz incompreensível? -
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
POEMA-COSMO - DO ELÍPTICO - ORNATO -
ante o que se aparta - no accentus - da voz - a
lucidez do esparso -
o poema-cosmo - do elíptico - ornato - deserto inapreensível
?
sobre o dizer - do insone - a corça branca - o prado - ininterrupto -
epigrammata - entreacto - copo de dados - nuvens do inalterável -
sobre o dizer - do insone - a corça branca - o prado - ininterrupto -
epigrammata - entreacto - copo de dados - nuvens do inalterável -
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
ESCORÇO - DO ENTREVISTO - CIRCUNLÓQUIO -
sob o irremediável esvaimento - reclinar-me na pedra - as altas torres - para apreender o plausível
- a profusão das figuras - dúplices - signos - do inesgotável - variações sobre nada - escorço - do entrevisto
- circunlóquio - o que nos instiga- ao animal inalcançável - o alento do unicórnio -
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
IMAGENS - DO INSANO - PENTAGRAMA - PUPILA - CEGUEIRA IRREMEDIÁVEL -
sobre as
imagens - do insano - discernir o
frémito - da luz - dos holofotes - a figura inalcançável
- e remover a
serpe - inescrutável - pedra sem remate - neste afã do pentagrama - minha
pupila - quietude da cegueira - irremediável -
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
PEDRA DO IRREVOGÁVEL - INTÉRMINO - ESVAIMENTO -
sobre os mapas - do aéreo
- tácito - mar - do escasso -
pedra do irrevogável - espuma do constante
- intérmino - esvaimento -
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
AS IMAGENS - DO INCOMENSURÁVEL - A TÉNUE FIGURA DO CERVO - ESSA SERPENTE NUBLADA -
por sobre a abnegação - ante a luz que se refracta - transpor as pedras - do incólume - manter-me
no emerso - terra adentro - e vislumbrar
as imagens - do incomensurável - a ténue figura - do cervo - essa serpente
nublada -
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
António Pedro Ribeiro: individualismo revolucionário, xamanismo e u-topia
De entre os últimos livros de António Pedro Ribeiro, merece ser especialmente citado “Fora da Lei” (e-ditora, Braga, Dezembro de 2012), um poemário miscelânea- iconoclasta que inclui um CD com gravações (recitações) do autor e diseur (ao longo do ano corrente). Todos estaremos de acordo em que estas páginas se inscrevem no quadro de uma escrita testemunho assente em esquemas e fórmulas composicionais pré-estabelecidas - jogos enunciativos - temáticas de teor auto-biográfico (no seu contexto preciso: o domínio dos “fantasmas” pessoais). “Combato os demónios/como Horderlin, Kleist, Nietzsche/vou até ao infinito” (p.30). Desta escrita, segundo o quadro poético-base dos fluxos mentais e da errância - habitual e constante - de ser e ser algo – singular e próprio - das combinações múltiplas – fica-nos a vizinhança imediata com o “caminho excêntrico” de que nos fala Hörderlin. Tem assim o condão de nos remeter à u-topia e ao niilismo (democrático).
hors la loi
Esta poética surge-nos, antes de mais nada,
associada à recusa do poder e do controlo tecnopolita
(para usar a expressão de Harvey Cox). Mostra-se-nos guiado pela crítica das
estruturas centralizadas de dominação e, no entanto, do capitalismo manipulativo
(onde será necessário acrescentar: a lógica do (ter sobre o ser) mercantil). Diremos que
estes textos-poemas coincidem também com um tom semi-insurrecional - no re-assumir da praxis política - da dialéctica do fora-da-lei, hors la loi - do “discurso livre”. E em que se reclama o compromisso
militante (minoritário) e o próprio ideário da liberdade: a "liberdade livre" de Rimbaud. A escrita de António
Pedro Ribeiro - já o dissemos antes - sempre se mostrou possuída por uma paixão
central da “urbs” - a prática viva e“mítica” da cidade-panorama - transumante
ou metafórica - da “polis” - dos “voyeurs” ou caminhantes
metropolitanos- “on the road” - bem à maneira da beat generation - do “dire-vrai”
sobre eros - as questões atinentes a todo o poder-dominação que se volve
demoníaco (a “Kultur” consumista ou o “American Way of Life”).
iluminações
Na acentuação crítica do mundo quotidiano (everyday-world) e do mundo da vida (life-word) - sob um fundo filosófico partilhado que nos
remete à Internationale situationiste
francesa e seus sonhos de revolução e libertação no domínio da vida quotidiana -
as teses criticistas de Henri Lefebvre - esta poemática
encerra em si, necessariamente, uma vocação dialógica e comunal. O point de départ da poesia de António
Pedro Ribeiro é, em sentido rigoroso e original, a discussão sobre
“representação” e “autoridade”: a sociedade do espectáculo. A originalidade desta escrita-vórtice está no contínuo
movimento de imersão/ re-emersão da palavra - dando prevalência à vox (vocis) - às “iluminações”. Poderemos pôr
em evidência um tipo de poesia engagé - pós-radical - de inscrição
ideológica “para-marxista”. Na crítica dos módulos e fórmulas da sociedade de
mercado e de dominação - num contexto de “acelerada” “liquefacção” das
estruturas e instituições sociais em que hoje naufragamos- esta poética prima,
antes de mais, pela singularidade e intransigência do seu radicalismo (a lição
báquica): “mas há noites em que
Dionísios/volta e aí dança, celebra e faz/tremer o instituído” (p.31)
niilismo
Os poemas de António Pedro Ribeiro exibem, em seu
contexto de significação original, um questionar social e político: advogam um niilismo
extremo, o l´enjeu do
individualismo revolucionário (na acepção de Alain Joufroy). Sob a égide da
crítica básica do sistema industrial-consumista - denunciam-se as patologias e
as fraquezas da razão instrumental - os truques e mentiras (a linguagem corrente) dos contabilistas e
dos economistas - do poder soberano e das suas instituições - a situação humana, the human predicament (na conceituação do teólogo Paul Tilitch). Mais ainda,
os oligopólios - o mundo financeiro - o
escravismo e a opressão mercantil - a estrutura e a lógica da
“sociedade unidimensional” (v. Manifesto Antinormalidade, p. 26-27). Unindo-se ao niilismo de Max Stirner e Guy Debord - as razões de uma
revolta anárquico-libertária - Rimbaud, Morrison, Ginsberg e Miller - o próprio
riso de Zaratustra – a obra de António Pinto Ribeiro assenta, de per si, na assumpção cénica (assertiva) do desejo ( a "indizibilidade do único"). Não
teremos dificuldade em entender, desde já, porque os gregos falavam de um logos
spermatikos, a palavra geradora ou o pensamento seminal.
trans(e)versal
A poesia de António Pedro Ribeiro assenta, por conseguinte, - já o vimos precedentemente - na crítica da alienação
(manipulação autoritária) e da dominação (instrumental, organizacional e
psíquica) - cujo protótipo simbólico é o “Zé-Ninguém” de W.Reich. Referimo-nos a uma escrita que veicula latu sensu a insânia, o pathos da loucura e a ebriedade. Não se deve perder de vista a plenitude e a beatitude de uma poética sugerindo um caminho (de discernimento) alternativo (primordial e iluminativo): "asceta longe da tribo xamã encoberto" (p.21).Trata-se
- à primeira vista - de uma escritura “engajada” - de apego ao trans(e)versal -
que se opõe à visão normal - convencional. Poderíamos falar longamente sobre a
conscienciosa rebelião desta poesia (porquanto uma escrita da contestação, do
dissentimento ou da recusa). Temos assim uma poética mundivivencial da dicção coloquial
quotidiana (para além da mera tradição lírica-discursiva).
activismo
existencial
A poesia negativa e
dialéctica-dialógica - catártica e des-construtora - assume a dissidência - o
poder da contestação e do protesto que é essencial a todo o pensamento livre e
criador. Esta escrita denunciadora do “vazio” do mundo - da ideologia e da linguagem
tecnocrática do capitalismo planetário (que transforma a pessoa humana em um
ser domesticado e unidimensional) esforça-se por ser - sob as estratificações
das convenções fixas - uma poesia dos transes e transportes visionários.
E é ainda bem preciso e essencial notar o seu pendor oracular e na coincidência
com as correntes beat. Uma das dimensões destes textos é o forte
pendor ideológico - enquanto propensão crítica do ethos do domínio
capitalista e inclusive da res publica burguesa. Já que se admite que o
poder político é basicamente sustentado pela coerção física, enquanto que o
poder económico se sustenta através de recompensa e privação. hybris
Trata-se de uma poesia da iconoclastia e da irreverência (composta de palavras-chave no sentido estrito) que enaltece, vimo-lo nos capítulos precedentes, a auto-reflexão. Em que há também um exercício crítico em torno da sociedade autoritária “unidimensional”. Por fim, o questionamento dum mundo dominado por critérios de eficiência e sucesso e, por conseguinte, assente na “auto-escravização”do humano. Verificar-se-á que esta poesia - com os seus laivos de narcisismo umbiguista - está necessariamente ligada ao activismo existencial-visionário: de negação do ethos e do pathos do autoritarismo. Noutras palavras: uma escrita que patenteia, desde as primeiras obras, uma opção ético-política libertária. Falámos dos insigths de uma poética que nos surge mobilizada pelo “sagrado selvagem - o amor ao prolixo- a pro-jecção da hybris. “sou o canto das aves/e das sereias/sou aquele que renasce/e aquele que bebeu o Graal/que esteve com Jesus,/Merlin e Zaratustra//sou o super-homem/o poeta que reinará/sobre a Terra/sou Quixote/a lutar contra os moinhos/sou Artur de Camelot/sou todos os vencidos/que hão-de vencer/sou a água dos rios/sou o poema que não acaba/a canção que não se cala/o ouro todo do mundo” (pp.18-19)
profecia
Parece pois
que as diligências da escrita de António Pedro Ribeiro, do poeta como do
“performer”, são comandadas, cada vez mais, pela “projecções” do inconsciente.
Isto traz-nos à mente os mecanismos de dissociação efectiva da identidade. A
sua forca de gravitação está na apologia do “espírito livre”: libertação e
liberdade colectiva. Tendo em conta essa outra virtude que é a poesia manifesto. Mais:
a causa em que parece enfileirar é a causa da velha e da nova esquerda em
estilo profético: democracia, auto-governo, organizações de base. É aqui que se
faz importante a verificação da missão da denúncia e da profecia (já o
indicamos anteriormente). Mas onde se enfatiza a liberdade e a “auto-determinação”: a de que
somos “fazedores de mundo” (assinale-se a obra "Ways of Worldmaking" (1978) de Nelson Goodman) e a de que - note-se - estamos
constantemente a fazer “novos mundos a partir dos velhos”. Como no-lo diz: “Capaz de gerar estrelas crio mundos novos”
(p.43). Mas, pela sua própria natureza, uma poesia de "demanda" que - no seu teor
cívico-ético - planfletarismo - simboliza a insurreição, a revolta, enfim, a
crítica ao fascismo (democrático) em acto - que
Agamben-Foucault denominou "bio-poder" - , quando se associa a visão paradigmática política do Ocidente ao campo
de concentração.
(contra)poder
A poética da qual falamos é o exercício de um "contra-poder" (num aferrar-se à ideologia libertária e democratista). “Os instrumentos pelos quais o poder é exercido e as fontes do Direito para esse exercício - escreve Kenneth Galbraith – estão interrelacionadas de maneira complexa. Alguns usos do poder dependem de estar oculto, de não ser evidente a submissão dos que a ele capitulam” (Anatomia do Poder, Difel, Lisboa, p. 19). Observar-se-á, portanto, que o poder (no estrito exercício e manutenção) nunca pode, afinal, dissociar-se do seu appparatus. O que não podemos esquecer é que a história é normalmente escrita em torno do exercício do poder. Assim sendo poderia igualmente ser escrita em torno das fontes do poder e dos instrumentos que o impõem (Ib. p.105). Haveria apenas de perguntar se, basicamente, a finalidade do poder é hoje o exercício do próprio poder? E se tem ainda sentido admitir-se a poesia - passivamente como activamente - num mundo assente nas relações de poder - enquanto dom, hospitalidade, transe, desmesura?
A poética da qual falamos é o exercício de um "contra-poder" (num aferrar-se à ideologia libertária e democratista). “Os instrumentos pelos quais o poder é exercido e as fontes do Direito para esse exercício - escreve Kenneth Galbraith – estão interrelacionadas de maneira complexa. Alguns usos do poder dependem de estar oculto, de não ser evidente a submissão dos que a ele capitulam” (Anatomia do Poder, Difel, Lisboa, p. 19). Observar-se-á, portanto, que o poder (no estrito exercício e manutenção) nunca pode, afinal, dissociar-se do seu appparatus. O que não podemos esquecer é que a história é normalmente escrita em torno do exercício do poder. Assim sendo poderia igualmente ser escrita em torno das fontes do poder e dos instrumentos que o impõem (Ib. p.105). Haveria apenas de perguntar se, basicamente, a finalidade do poder é hoje o exercício do próprio poder? E se tem ainda sentido admitir-se a poesia - passivamente como activamente - num mundo assente nas relações de poder - enquanto dom, hospitalidade, transe, desmesura?
leviathan
Café-Bar Olimpo
Porto 21 de
Dezembro de 2012
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
INTENTO - DA VOZ - A NUVEM DERRADEIRA -
convencido - que deixamos
- concluir-se o intento - da voz - através
- do corpo - que se esvai - imagens esparsas - do último momento - a nuvem derradeira -
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
AS IMAGENS DO INOMINADO - GAZE - NO ALENTO DOS BRÔNQUIOS -
as imagens do inominado - tênue pavilhão - gaze - no alento
dos brônquios - enfastiada palidez - des-ser - esófago - suco gástrico - sofrimento
e morte - irreversível -
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